“A Metamorfose pelo humor”, de Léo Schlafman

Comumente se chega a Kafka pela angústia e tristeza. Muitos de seus leitores confessam o peso que os livros dos escritor carrega. Porém, Léo Schlafman nos lembra das risadas de Franz Kafka, enquanto lia para seus amigos, páginas de livros como O processo.

Max Brod, amigo de Kafka, lembrou que ele “ria com prazer e cordialmente”. Lia seus escritos aos amigos para diverti-los. E quando leu O Processo “ria de tal maneira que por alguns momentos não conseguia continuar a leitura”. Kafka agredia os sistemas (família, sociedade, burocracia) com a arma do cômico e do grotesco.

O italiano Renato Barilli, no livro Comicità di Kafka, afirma que o método kafkiano é a revolta edípica que transforma punição e castigo em instrumentos de prazer mediante escrita que destrói o conformismo, a hipocrisia e a repressão “usando saídas liberatórias próprias da comicidade”.

A chave do humor kafkiano está no estilo. Por questão de temperamento, como assinala Klaus Wagenbach (Kafka), “pensava por imagens e era incapaz de seguir raciocínio abstrato”. Não se perdia em descrições ou comentários. O sabor exótico de seus romances, contos e novelas está no rápido enunciado fantástico (“Quando Gregor Samsa despertou uma manhã, depois de sono agitado, viu-se na cama convertido em monstruoso inseto”), seguindo-se daí narrativa realista em que, dado enunciado, as palavras parecem não se ordenar logicamente.

Mas a desordem é apenas aparente. O estilo de Kafka, decantado, diferia como vinho da água do estilo dos colegas da Escola de Praga: Gustav Meyrink, Egon Kisch, Paul Leppin, Viktor Hadwiger, Max Brod, Oskar Wiener, Franz Werfel, Rainer Maria Rilke. A literatura da Escola de Praga, repleta de metáforas sobrecarregadas e adjetivos barrocos, refletia a atmosfera sufocante ainda visível nas ruas da Praga histórica. Era povoada de anormais: assassinos, rufiões, bêbados, transviados, sósias, possessos, idiotas, leprosos, homúnculos.

Paul Leppin escreve assim em Daniel Jesus: “Então uma fanfarra estridente ressoou, imperiosa, em algum lugar da abóbada. E Martha-Bianka viu Daniel Jesus e a giganta se levantarem de seus assentos enquanto dois lacaios faziam sua entrada, portando coroa negra cujas pedras preciosas tinham a palidez cadavérica de lágrimas.” Rilke em Os cadernos de Malte Laurids Brigge: “Ela me observa… com seus olhos remelentos, seus olhos onde um doente parecia ter cuspido babas esverdeadas nas pálpebras sangrentas.” Meyrink, em Der violette Tod, falou de “falenas de tons cambiantes e de formas bizarras que abriam, como nos livros de magia, suas asas altas como a mão sobre flores mudas”.

Rilke conservou atá a velhice o hábito de folhear dicionários da Biblioteca Nacional em busca de termos raros. Kafka, desprezando o estilo pomposo da língua alemã praguense, mas sem se distanciar das fontes populares e sem perder de vista o alto alemão, chegou ao despojamento que chamou a atenção dos próprios contemporâneos. A frase é direta, irônica; a palavra tem poder intrínseco. Em O Porcesso, o personagem K pensa assim a respeito da mulher que encontrou numa das salas do palácio da justiça (onde corre um processo que ele não sabe por que se formou e nem de que é acusado): “Ela o tentava de verdade e, apesar de todas suas reflexões, não encontrava razão válida para não ceder à tentação…”

Em O castelo, K, contratado por Klamm, senhor do castelo, não consegue entrar nem assumir o emprego. E ainda compromete sua situação tornando-se amante da amante de Klamm. Havia no modo de ser de Frieda “algo de alegre e de livre” e quando ambos ficaram finalmente a sós “abraçaram-se, o corpo pequeno dela ardendo nas mãos de K; numa espécie de vertigem de que K procurava em vão salvar-se, rodaram alguns passos e bateram surdamente contra a porta de Klamm e logo se deitaram em meio às poças de cerveja e outras sujeiras de que o solo estava coberto. Passaram-se horas…”

Os nomes dos personagens são humorísticos. Schwartzer (O castelo) quer dizer negro, Conde Weswest o ponto quimérico da rosa dos ventos e Klamm garra ou dificuldade. O nome da senhorita Bürstner , a datilógrafa (O processo), é verbo com significação erótica em vários dialetos alemães.

Em “A sentença” (A muralha chinesa) um jovem discute com o pai a respeito de um amigo. Ao final, desesperado, suicida-se: “Precipitou-se para fora, atravessou os trilhos da ponte, atraído irresistivelmente pela água. Aferrou-se ao parapeito, como o esfaimado à comida. Pulou o gradeamento feito o atleta consumado que fora em anos mais jovens, para orgulho dos pais. Manteve-se um instante, com as mãos cada vez mais fracas. Espiou entre as barras a passagem de um ônibus cujo ruído cobriria facilmente o de sua queda e exclamou com voz fraca: ‘Queridos pais, apesar de tudo sempre os amei’, e deixou-se cair no vazio. Neste momento havia na ponte uma circulação literalmente louca de veículos.”

Numa carta a Max Brod, Kafka explicou: “Você sabe o que significa a frase final? Ao escrevê-la pensei numa forte ejaculação.”

A claridade do estilo de Kafka, sua leveza, o humor, a liberação, tinham, no entanto, por moldura, os recantos obscuros, as passagens secretas, as janelas cegas, os pátios sujos, as cervejarias ruidosas, os albergues sinistros de Praga que não queria abandonar. Das janelas das casas onde morou, na rua dos Alquimistas, ou no pequeno apartamento do palácio Schoenborn, morada senhorial do século XVIII, Kafka contemplava as casas decaídas, a catedral escura e vazia, mas não abandonava a rotina da vida quotidiana, que descreveu como ela é: ameaçada e sem sentido. “Não será talvez na luta, mas na alegria que acabarei por sucumbir.”

Nas madrugadas praguenses tecia com paciência suas alegorias (“é um dos maiores criadores de símbolos da literatura universal”. disse Otto Maria Carpeaux). Num pequeno texto de A muralha chinesa, “Das alegorias”, queixou-se de que as palavras dos sábios sejam sempre alegorias, não aplicáveis à vida diária. E advertiu: “Se você obedecer às alegorias, você mesmo acabará se tornando alegoria.”

SCHLAFMAN, L. A metamorfose pelo humor (Kafka). In: SCHLAFMAN, L. A verdade e a mentira: novos caminhos para a literatura. Rio de Janeiro : Civilização Brasileira, 1998. p. 147-149.

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