Entrevista com Leandro Romano (Teatro Voador Não Identificado) sobre a peça ‘O processo’

Em entrevista ao Projeto Franz Kafka, Leandro Romano, diretor teatral do Teatro Voador Não Identificado, nos conta a experiência da segunda temporada de O processo nos palcos do Rio de Janeiro.

Formada em 2011 por alunos da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), a companhia Teatro Voador Não Identificado tem em sua história espetáculos que circularam por diversos teatros do Rio de Janeiro. Trouxeram no ano de 2014 e 2015 a peça O processo, adaptação da obra homônima de Franz Kafka. Na encenação, um ator convidado representa o papel de Josef K., personagem principal do livro. Sem um roteiro prévio, ou outras orientações costumeiras de como agir no palco, o ator convidado se aproxima da realidade de K.: o completo descontrole de sua existência.

 

PROJETO FRANZ KAFKA: Nós descobrimos que é o quarto espetáculo que o grupo apresentou ao longo de sua composição e história, desde a saída dos muros da UNIRIO. Como vocês se sentem agora?

LEANDRO ROMANO: Sinto que evoluímos muito como artistas. A experiência profissional é uma etapa gigantesca a ser superada. Acho que, aos poucos, estamos trilhando um caminho interessante de pesquisa e, principalmente, de desconforto. Não queremos fazer o fácil.

PROJETO FRANZ KAFKA: Tivemos o prazer de estar na estreia da segunda temporada, e agora já estamos na última apresentação. Como poderiam resumir as duas temporadas que giraram em torno de Kafka?

LEANDRO ROMANO: Foram duas temporadas incríveis. Até então, tivemos 21 atores diferentes interpretando Josef K. e 21 espetáculos completamente diferentes. O fato de estar em temporada com uma pessoa que nunca é a mesma é revigorante. Eu não me canso de assistir ao espetáculo. Mas é curioso que, ainda assim, estamos sempre entendendo novas chaves de leitura da obra do Kafka. Às vezes mais política, às vezes mais temporal, às vezes mais metafórica, enfim, tem sido uma aventura mesmo.

PROJETO FRANZ KAFKA: Como é fazer do teatro forma de combate a um mundo hoje naturalizado e ter o Kafka como um instrumento? Por que Kafka?

LEANDRO ROMANO: Acredito que Kafka seja um dos grandes exemplos de autores atemporais. Não somente pelo conteúdo de suas obras, mas também pela linguagem. É fácil estabelecer empatia pela obra dele; Kafka não é difícil de ler, apesar de muitas vezes apresentar um estranhamento. Se tomamos como exemplo “A metamorfose” (que é uma obra mais curta), ela tem um apelo grande com o público jovem, é um título sempre presente nas bibliografias escolares e é de fácil entendimento. Porque, em certa medida, Kafka não está falando sobre um homem que foi transformado num inseto, mas está nos dizendo o quanto o mundo é um lugar de desconforto. Nossa ideia com a peça é trazer este desconforto para cena. É estranho ver um ator que não ensaiou em cena. E é um lugar de tensão tanto para o ator, quanto para o elenco e principalmente para plateia. Nesse sentido, Kafka cai como uma luva no mundo contemporâneo.

PROJETO FRANZ KAFKA: Durante a peça, percebemos os risos intensos da plateia. A crítica por meio do humor é a melhor?

LEANDRO ROMANO: Não diria que a crítica venha por meio do humor, até porque, em grande parte, os momentos mais cômicos para plateia são sugeridos pelo ator convidado e não por nós. Acho que o texto do Kafka é bastante claro no que quer dizer. Claro que a obra possui várias interpretações, mas, grosso modo, a crítica ao sistema burocrático acaba por prevalecer. Sobre a questão do riso, é sabido que o próprio Kafka achava “O processo” muito engraçado e ria às gargalhadas quando leu o primeiro capítulo para seus amigos. De alguma forma, o estranhamento é cômico e é uma ferramenta que destaca aquilo que se quer ressaltar, mas a comicidade existe tanto quanto o desconforto.

PROJETO FRANZ KAFKA: Esse riso teria a capacidade de mostrar nossa naturalização frente ao protagonista “condenado sem ter feito mal algum”? E de certa forma isso diz algo sobre nós, nosso comodismo frente ao nosso semelhante?

LEANDRO ROMANO: Essa é uma possibilidade, mas não tenho visto exatamente essa reação da plateia. Pelo contrário. As pessoas me procuram para dizer que torciam pelo Josef K. e que queriam que ele fosse absolvido do processo. Costumo dizer que a peça se parece um pouco com uma partida de futebol. A plateia torce de tal maneira que muitas vezes parece que vai haver uma vitória, um empate ou uma derrota. Então, nesse sentido, acho que a peça instiga justamente o não comodismo frente ao nosso semelhante. Talvez aí esteja inclusive o ponto mais político do espetáculo: o não individualismo.

PROJETO FRANZ KAFKA: As risadas não são as únicas ações do público, ele também é transformado em júri em um dado momento da peça, “Tudo é o tribunal”, diz o pintor Titorelli a Josef K. Todo o teatro passa a ser o tribunal. As pessoas que assistem não sabem se devem se pronunciar a favor de Josef K, mas a maioria fica em silêncio. A manifestação da plateia estaria prevista?

LEANDRO ROMANO: Não. O grande barato da peça é justamente o fato de não podermos prever nada. É claro que isso passa pela cabeça, tudo é possível, mas sequer chega a ser um desejo nosso.

PROJETO FRANZ KAFKA: Um dos convidados dessa segunda temporada se escondeu fora do palco nos atos finais. Porém, os agentes da lei cumpriram mesmo assim a sentença de morte de Josef K. Aparente descontrole para o público ou vitória da burocracia?

LEANDRO ROMANO: Não chamaria de descontrole. É uma possibilidade dentre outras mil. Se ela é melhor ou pior, é difícil dizer. Depende de uma série de outras escolhas feitas pelo ator. Acho que a diferença da nossa peça para outros espetáculos de improviso é que, em “O processo”, estamos contando uma história que tem início e fim. O que acontece no entre é o que nos interessa. A única regra clara que dei para os atores foi: aconteça o que acontecer, a história será contada. Foi isso o que aconteceu.

PROJETO FRANZ KAFKA: Como última pergunta. Agora encerrando a temporada, e fazendo um balanço entre essa aproximação da literatura clássica e o teatro. Enfrentamos o problema da leitura e o teatro como um hábito real da população. Como vocês se sentem no duplo papel de incentivar a leitura de Kafka e ao mesmo tempo a vinda ao teatro?

LEANDRO ROMANO: É sempre muito bacana quando vemos que uma coisa leva a outra. Inicialmente isto não foi uma busca intencional, mas, de fato, ao colocarmos Kafka em cena, apontamos também para o problema da leitura. Acredito num teatro multirreferencial, que seja capaz de tratar de outras áreas (não só artísticas). Acho que esse é o grande poder da arte: abrir outras janelas. Prefiro não me focar nos problemas. Sei que existem, mas o teatro (assim como nenhuma outra manifestação artística) não pode querer para si o papel de salvador. Se isto acontece, ótimo. Se não, a linguagem já pode dar conta.

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