Barthes leitor de Kafka [Por Roland Barthes, em “A preparação do romance”, vol II]

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Escritório 

Para Kafka, é (em parte) o Escritório: “Que eu esteja simplesmente perdido, enquanto não estiver livre do escritório <conselho jurídico de uma companhia de seguros>, eis o que é, para mim, a própria evidência: trata-se unicamente, na medida do possível, de manter a cabeça suficientemente alta para não me afogar” (daí o diário) –> E isto:

KAFKA, Diário 

(Kafka escrevendo ou ditando uma frase para o Escritório, com grande desgosto:)

“… Afinal digo a frase, mas permaneço tomado de um grande terror, porque vejo que tudo em mim está pronto para um trabalho poético, que esse trabalho seria para mim uma solução divina, uma entrada real na vida, enquanto no escritório devo, em nome de uma lamentável papelada, arrancar um pedaço de sua carne ao corpo de tal felicidade”. 

O Escritório equivale, aqui, a toda espécie de alienação cotidiana (“ir ao escritório todos os dias”): tudo o que é obrigatório, o preço que é preciso pagar à sociedade para viver; escrita = meu próprio sangue –> é o preço do sangue. – Notar: como sempre, nenhum princípio psicológico é garantido, universal. Lembro-me de que Queneau escrevia melhor por que obrigado a arrancar o livro ao Escritório.

(Em A preparação do romance – II, de  Roland Barthes. Editora Martins Fontes, 2005. p. 152-153)

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