“NOVO” – Dissertação: “As mortes de Josef K.: da tensão entre melancolia e luto”, de Eduardo Oliveira Pereira (UFRJ, 2017)

RESUMO A presente dissertação trata de duas cenas que envolvem um mesmo e outro personagem e, cada uma a seu modo, figuram as mortes de Josef K.,porém, cenas contidas em corpus de obras diferentes, a primeira em O processo e a segunda no livro Um médico rural. Tento construir uma relação – que não significa necessariamente uma dialética – entre tais cenas de morte de Josef K., e, nesse sentido, sou levado a pensar no jogo do Fort-Da descrito por Freud, mais precisamente no que diz respeito aos efeitos de leitura que se manifestam entre o fosso da ausência de representação para falar da dor de uma morte sem túmulo e o substituto dessa ausência de representação, substituto da dor dessa morte que não tem medida. Sustento que tais efeitos de leitura atravessam, em tensão permanente, os caminhos da melancolia, marcantes em O processo, e do trabalho de luto, supostamente terminado em Um sonho quando a perda do objeto, do corpo, é nomeada a partir da inscrição do nome de Josef K. na lápide. Um sonho consiste em outra narrativa, outra forma de conjugar essa pura perda sem palavras, essa pura dor que é morrer “como um cão”, e justamente essa leitura a transforma em cena substituta desse impossível de representação. Não se trata, portanto, de uma leitura orgânica na qual uma cena substitui a outra em termos de estrutura, mas sim uma leitura em que uma cena faz corte no que se pretende totalitário e, por consequência, propõe outra aliança, propõe a vigência de outra forma de ler Kafka, forjando-se outra prática de escrita, rasura e palimpsesto, algo da ordem de um contar de novo, de uma reescrita que redimensiona o trauma contido na primeira cena e confirma que esse trauma necessita ser repetido, reencenado para se instalar. Não há cura entre uma cena e outra, não há apagamento do trauma e da dor, mas apenas a constatação de que são formas diferentes de dizer dessa morte, dessa perda.

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