ABRALIC 2021 — Franz Kafka, Intérprete da Modernidade (28-30/09)

COORDENADORES

Alexandre Villibor Flory (Universidade Estadual de Maringá)
Renato Oliveira de Faria (Universidade de São Paulo)
Tomaz Amorim Fernandes Izabel (Universidade Estadual de Campinas)

RESUMO

A três anos de completar o centenário de sua morte, Franz Kafka (1883-1924) segue como um dos escritores mais lidos e estudados no mundo. São incontáveis as adaptações e as referências à sua obra, a seus personagens e às vezes ao próprio escritor como personagem, nas mais variadas formas de ficção, de adaptações literárias e cinematográficas até, mais recentemente, o videogame. Essa presença aponta para a atualidade de sua obra e para a permanência social de muitos dos seus temas. O período histórico chamado de Modernidade, caracterizado sobretudo pela ruptura com condições econômicas, sociais e estéticas anteriores, encontra na obra de Kafka uma reflexão e uma representação à altura. O escritor aparece como intérprete da Modernidade no duplo sentido desse conceito: como autor da geração expressionista, ele participa da demolição estética moderna das normas artísticas clássicas (Modernidade estética); concomitantemente, sua obra reflete sobre os processos sociais de modernização que desencadearam em ritmo vertiginoso múltiplas experiências de crise (Modernidade social). Os efeitos psíquicos da modernização, que ao longo do século XX foram repetidamente descritos como experiências de um mundo tornado então estranho, insólito, opaco, impenetrável, coisificado, são motivos que atravessam a obra de Kafka e que se tornaram sinônimo de “kafkiano”. Nos protagonistas de seus romances, O desaparecido (Amerika), O processo e O castelo, está refletida a condição do sujeito moderno – ratlos, desorientado, sem o conselho da tradição (BENJAMIN, 1996) – diante de máquinas burocráticas de funcionamento opaco e onipresentes (ANDERS, 1969), tanto na intimidade das relações afetivas e do lar (ROBERT, 1963), quanto na vida profissional e pública. A representação total de instituições opressoras, através de uma técnica de “deformação precisa” (BENJAMIN, 1992) que foi além da representação realista, rendeu críticas vindas da esquerda de comentadores como Bertolt Brecht (BRECHT, 1990) e Georg Lukács (LUKÁCS, 1969), ainda que posteriormente ambos tenham revisto sua posição. Por outro lado, outros comentadores também enxergaram na obra possibilidades de resistência (LÖWY, 2005), de linhas de fuga (DELEUZE; GUATTARI, 1977), de reinvenções das relações corporais, sociais e políticas (BUTLER, 2013). As correntes críticas mais recentes também têm se debruçado sobre a obra, em narrativas como Na colônia penal, “Josefina, a cantora” e “Um relatório para uma academia”, oferecendo reflexões sobre elementos raciais e pós-coloniais (THOMPSON, 2016) e de gênero (GROSS, 1985). Além de contista e romancista, Kafka figura também entre os grandes diaristas do século. Ele tratou seus diários tanto como espaço de relato cotidiano, quanto de laboratório literário, embaralhando os limites entre a escrita de si e a ficção, antecipando debates teóricos importantes sobre autoficção e os limites difíceis entre vida e obra (como mostram também suas cartas). Para além de sua posição como judeu assimilado em um centro da periferia da Europa, também as experiências profissionais de Kafka (KAFKA, 2004: Amtliche Schriften) possibilitaram ao escritor uma posição única como testemunha dos grandes processos de transformação social, que se iniciaram no século XIX e culminaram na “catástrofe original” do século XX (MOMMSEN, 2004), a Primeira Guerra Mundial, responsável pela dissolução da antiga ordem europeia. A propósito, convém lembrar que as experiências como funcionário do Instituto de Seguros contra Acidentes dos Trabalhadores em Praga propiciaram a Kafka não apenas uma percepção privilegiada da luta cada vez mais encarniçada entre capital e trabalho (e das consequências negativas da vertiginosa modernização do mundo do trabalho) como também do fato de que as devastações da Primeira Guerra Mundial não se restringiam, de modo algum, aos campos de batalha, mas abarcavam também o chamado “front doméstico”, configurando assim o que se convencionou chamar de “guerra total”. Tragicamente, sua obra também foi lida a posteriori a partir dos horrores da Segunda Guerra Mundial, como uma espécie de antecipação da experiência do sujeito submetido a mundos totalitários (ADORNO, 1998), o que rendeu a Kafka o epíteto de profeta e a sua obra uma proximidade com a chamada “literatura de testemunho”. Para além da proximidade temática, a inovação formal de sua obra, com a retomada de formas e gêneros clássicos da tradição, parodiados, esvaziados ou virados contra si mesmo (DERRIDA, 2010), inspiraram escritores fundamentais do século XX (como Borges e Beckett). A experiência moderna encontrou em sua obra um dos primeiros momentos de grande expressão, o que não se deu sem ambivalência na recepção, como mostram as inúmeras querelas entre sionistas, marxistas, psicanalistas, entre outros. Que correntes críticas tão diversas tenham se batido até hoje em busca de uma interpretação justa mostra a diversidade e a seminalidade dessa obra. Serão aceitos trabalhos motivados por elementos dessa ementa ou que lidem com a obra de Kafka levando em conta o contexto moderno, que estabeleçam comparação com outros escritores, que reflitam sobre adaptações para a literatura ou outras artes, que reflitam sobre as intersecções entre vida e obra nos diários, cartas e textos estritamente literários ou que comentem leituras das diversas correntes críticas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ADORNO, Theodor. “Anotações sobre Kafka”. In: Prismas: crítica cultural e sociedade. Trad. de Augustin Wernet e Jorge de Almeida. São Paulo: Ática, 1998. ANDERS, Günther. Kafka: pró e contra. Trad. e introdução de Modesto Carone. São Paulo: Perspectiva, 1969. BENJAMIN, Walter. Benjamin über Kafka: Texte, Briefzeugnisse, Aufzeichnungen. Org. por Hermann Schweppenhäuser. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1992. BENJAMIN, Walter. “O narrador”. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Trad. de Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1996. BRECHT, Bertolt. “Über die moderne tschechoslowakische Literatur”. In: Schriften zur Literatur und Kunst II. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 1990. BUTLER, Judith. “A quem pertence Kafka?”. Terceira Margem (online). Trad. de Tomaz Amorim Izabel. Ano XVII, N. 28, Julho-Dezembro de 2013. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/tm/article/download/10767/7937. DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Kafka: por uma literatura menor. Trad. de Júlio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1977. DERRIDA, Jacques. Força de Lei. Trad. de Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010. GROSS, Ruth. V. “Of Mice and Women: Reflections on a Discourse in Kafka’s Josefine, die Sängerin oder Das Volk der Mäuse”. In: The Germanic Review, N. 60, 1985. KAFKA, Franz. Amtliche Schriften. Org. por Klaus Hermsdorf e Benno Wagner. Frankfurt am Main: Fischer, 2004. LÖWY, Michael. Franz Kafka, sonhador insubmisso. Trad. de Gabriel Cohn. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2005. LUKÁCS, Georg. Realismo Crítico Hoje. Trad. da edição francesa de Ermínio Rodrigues. Brasília: Coordenada-Editora de Brasília Ltda, 1969. MOMMSEN. Wolfgang. Die Urkatastrophe Deutschlands: der Erste Weltkrieg 1914-1918. Stuttgart: Klett-Cotta, 2004. ROBERT, Marthe. Franz Kafka. Trad. de José Manoel Simões. Lisboa: Editorial Presença, 1963. THOMPSON, Mark. Kafka’s Blues: Figurations of Racial Blackness in the Construction of an Aesthetic. Evantson: Northwestern University Press, 2016.

PALAVRAS-CHAVE

Franz Kafka; Modernidade estética; Modernidade social; Crítica da modernização; Literatura comparada.

PROGRAMAÇÃO

S01 28/09 10h-12h – https://youtu.be/j_9sShdmMUI

S02 28/09 14h-18h – https://youtu.be/ETQDDhlxiXs

S03 30/09 10h-12h – https://youtu.be/OS6jNKeCqBg

S04 30/09 14h-18h – https://youtu.be/GLlFK3BK84w

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