{"id":210,"date":"2025-12-03T02:13:43","date_gmt":"2025-12-03T02:13:43","guid":{"rendered":"https:\/\/franzkafka.com.br\/acervo\/?p=210"},"modified":"2025-12-03T02:26:58","modified_gmt":"2025-12-03T02:26:58","slug":"um-relatorio-para-uma-academia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franzkafka.com.br\/acervo\/2025\/12\/03\/um-relatorio-para-uma-academia\/","title":{"rendered":"[Conto] Um relat\u00f3rio para uma academia"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button is-style-outline is-style-outline--1\"><a class=\"wp-block-button__link wp-element-button\" href=\"https:\/\/franzkafka.com.br\/acervo\/2025\/12\/03\/erzahlung-erzahlung\/\">&#x1f1e9;&#x1f1ea;<\/a><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-button is-style-outline is-style-outline--2\"><a class=\"wp-block-button__link wp-element-button\" href=\"https:\/\/franzkafka.com.br\/acervo\/2025\/12\/03\/um-relatorio-para-uma-academia\/\">&#x1f1e7;&#x1f1f7;<\/a><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-button is-style-outline is-style-outline--3\"><a class=\"wp-block-button__link wp-element-button\">&#x1f1ea;&#x1f1f8;<\/a><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-button is-style-outline is-style-outline--4\"><a class=\"wp-block-button__link wp-element-button\">&#x1f1fa;&#x1f1f8;<\/a><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>KAFKA, Franz. Um relat\u00f3rio para uma academia. In: Um m\u00e9dico rural. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1999.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Eminentes senhores da Academia:<\/p>\n\n\n\n<p>Conferem-me a honra de me convidar a oferecer \u00e0 Academia um relat\u00f3rio sobre a minha pregressa vida de macaco.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o posso infelizmente corresponder ao convite nesse sentido. Quase cinco anos me separam da condi\u00e7\u00e3o de s\u00edmio; espa\u00e7o de tempo que medido pelo calend\u00e1rio talvez seja breve, mas que \u00e9 infindavelmente longo para atravessar a galope como eu o fiz, acompanhado em alguns trechos por pessoas excelentes, conselhos, aplauso e m\u00fasica orquestral, mas no fundo sozinho, pois, para insistir na imagem, todo acompanhamento se mantinha bem recuado diante da barreira. Essa realiza\u00e7\u00e3o teria sido imposs\u00edvel se eu tivesse querido me apegar com teimosia \u00e0 minha origem e \u00e0s lembran\u00e7as de juventude. Justamente a ren\u00fancia a qualquer obstina\u00e7\u00e3o era o supremo mandamento que eu me havia imposto; eu, macaco livre, me submeti a esse jugo. Com isso por\u00e9m as recorda\u00e7\u00f5es, por seu turno, se fecharam cada vez mais para mim. O retorno, caso os homens o tivessem desejado, estava de in\u00edcio liberado atrav\u00e9s do portal inteiro que o c\u00e9u forma sobre a terra, mas ele foi se tornando simultaneamente mais baixo e mais estreito com a minha evolu\u00e7\u00e3o, empurrada para a frente a chicote; sentia-me melhor e mais inclu\u00eddo no mundo dos homens; a tormenta cujo sopro me carregava do passado amainou; hoje \u00e9 apenas uma corrente de ar que me esfria os calcanhares; e o buraco na dist\u00e2ncia, atrav\u00e9s do qual ela vem e atrav\u00e9s do qual eu outrora vim, ficou t\u00e3o pequeno que eu me esfolaria no ato de atravess\u00e1-lo, mesmo que as for\u00e7as e a vontade bastassem para que retrocedesse at\u00e9 l\u00e1. Falando francamente \u2014 por mais que eu goste de escolher imagens para estas coisas \u2014, falando francamente, sua origem de macaco, meus senhores, at\u00e9 onde tenham atr\u00e1s de si algo dessa natureza, n\u00e3o pode estar t\u00e3o distante dos senhores como a minha est\u00e1 distante de mim. Mas ela faz c\u00f3cegas no calcanhar de qualquer um que caminhe sobre a terra \u2014 do pequeno chimpanz\u00e9 ao grande Aquiles.<\/p>\n\n\n\n<p>No sentido mais restrito, entretanto, posso talvez responder \u00e0 indaga\u00e7\u00e3o dos senhores e o fa\u00e7o at\u00e9 com grande alegria. A primeira coisa que aprendi foi dar um aperto de m\u00e3o; o aperto de m\u00e3o \u00e9 testemunho de franqueza; possa eu hoje, quando estou no auge da minha carreira, acrescentar \u00e0quele primeiro aperto de m\u00e3o a palavra franca. N\u00e3o ensinar\u00e1 nada essencialmente novo \u00e0 Academia e ficar\u00e1 muito aqu\u00e9m do que se exigiu de mim e daquilo que, mesmo com a maior boa vontade, eu n\u00e3o posso dizer \u2014 ainda assim deve mostrar a linha de orienta\u00e7\u00e3o pela qual um ex-macaco entrou no mundo dos homens e a\u00ed se estabeleceu. Mas sem d\u00favida n\u00e3o poderia dizer nem a insignific\u00e2ncia que se segue, se n\u00e3o estivesse plenamente seguro de mim e se o meu lugar em todos os grandes teatros de variedades do mundo civilizado n\u00e3o tivesse se firmado a ponto de se tornar inabal\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Sou natural da Costa do Ouro. Sobre como fui capturado, tenho de me valer de relatos de terceiros. Uma expedi\u00e7\u00e3o de ca\u00e7a da firma Hagenbeck \u2014 ali\u00e1s, com o chefe dela esvaziei desde ent\u00e3o algumas boas garrafas de vinho tinto \u2014 estava de tocaia nos arbustos da margem, quando ao anoitecer, eu, no meio de um bando, fui beber \u00e1gua. Atiraram; fui o \u00fanico atingido; levei dois tiros. Um na ma\u00e7\u00e3 do rosto: esse foi leve, mas deixou uma cicatriz vermelha de pelos raspados, que me valeu o apelido repelente de Pedro Vermelho, absolutamente descabido e que s\u00f3 podia ter sido inventado por um macaco, como se eu me diferenciasse do macaco amestrado Pedro \u2014 morto n\u00e3o faz muito tempo e conhecido em um ou outro lugar \u2014 somente pela mancha vermelha na ma\u00e7\u00e3 da cara. Mas digo isso apenas de passagem.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo tiro me acertou embaixo da anca. Foi grave e a ele se deve o fato de ainda hoje eu mancar um pouco. Li recentemente, num artigo de algum dos dez mil cabe\u00e7as de vento que se manifestam sobre mim nos jornais, que minha natureza de s\u00edmio ainda n\u00e3o est\u00e1 totalmente reprimida; a prova disso \u00e9 que, quando chegam visitas, eu tenho predile\u00e7\u00e3o em despir as cal\u00e7as para mostrar o lugar onde aquele tiro entrou. Deviam arrancar um a um os dedinhos da m\u00e3o do sujeito que escreveu isso. Eu \u2014 eu posso despir as cal\u00e7as a quem me apraz; n\u00e3o se encontrar\u00e1 l\u00e1 nada sen\u00e3o uma pel\u00facia bem tratada e a cicatriz de um \u2014 escolhamos aqui, para um objetivo definido, uma palavra definida, mas que n\u00e3o deve ser mal entendida \u2014 a cicatriz de um tiro delinquente. Est\u00e1 tudo exposto \u00e0 luz do dia, n\u00e3o h\u00e1 nada a esconder; quando se trata da verdade, qualquer um de esp\u00edrito largo joga fora as mais finas maneiras. Se, ao contr\u00e1rio, aquele escrevinhador despisse as cal\u00e7as diante da visita que chega, isso sem d\u00favida teria um outro aspecto e quero considerar como sinal de ju\u00edzo se ele n\u00e3o o fizer. Mas ent\u00e3o que me deixe em paz com os seus sentimentos delicados!<\/p>\n\n\n\n<p>Depois daqueles tiros eu acordei \u2014 e aqui, aos poucos, come\u00e7a a minha pr\u00f3pria lembran\u00e7a \u2014 numa jaula na coberta do navio a vapor da firma Hagenbeck. N\u00e3o era uma jaula gradeada de quatro lados; eram apenas tr\u00eas paredes pregadas num caixote, que formava portanto a quarta parede. O conjunto era baixo demais para que eu me levantasse e estreito demais para que eu me sentasse. Por isso fiquei agachado, com os joelhos dobrados que tremiam sem parar, na verdade voltado para o caixote, uma vez que a princ\u00edpio eu provavelmente n\u00e3o queria ver ningu\u00e9m e desejava estar sempre no escuro, enquanto por tr\u00e1s as grades da jaula me penetravam na carne. Consideram vantajoso esse tipo de confinamento de animais selvagens nos primeiros tempos e hoje, pela minha experi\u00eancia, n\u00e3o posso negar que seja assim do ponto de vista humano.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ent\u00e3o eu n\u00e3o pensava isso. Pela primeira vez na vida estava sem sa\u00edda; ao menos em linha reta ela n\u00e3o existia; em linha reta diante de mim estava o caixote, cada t\u00e1bua firmemente ajustada \u00e0 outra. \u00c9 verdade que por entre as t\u00e1buas havia uma fresta que ia de lado a lado e, quando a descobri, saudei-a com o uivo bem-aventurado do animal irracional, mas nem de longe essa fresta bastava para deixar o rabo passar e mesmo com toda a for\u00e7a de um macaco ela n\u00e3o podia ser alargada.<\/p>\n\n\n\n<p>Conforme me disseram mais tarde, devo ter feito muito pouco barulho, donde se concluiu que ou iria perecer logo ou que, caso conseguisse sobreviver aos primeiros tempos cr\u00edticos, ficaria bastante apto a me amestrar. Sobrevivi a esses tempos. Surdos solu\u00e7os, dolorosa ca\u00e7a \u00e0s pulgas, fatigado lamber de um coco, batidas de cr\u00e2nio na parede do caixote e mostrar a l\u00edngua quando algu\u00e9m se aproximava \u2014 foram essas as primeiras ocupa\u00e7\u00f5es da minha nova vida. Em tudo por\u00e9m apenas um sentimento: nenhuma sa\u00edda. Naturalmente s\u00f3 posso retra\u00e7ar com palavras humanas o que ent\u00e3o era sentido \u00e0 maneira de macaco e em consequ\u00eancia disso cometo distor\u00e7\u00f5es; mas embora n\u00e3o possa mais alcan\u00e7ar a velha verdade do s\u00edmio, pelo menos no sentido da minha descri\u00e7\u00e3o ela existe \u2014 quanto a isso n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 ent\u00e3o eu tivera tantas vias de sa\u00edda e agora nenhuma! Estava encalhado. Tivessem me pregado, minha liberdade n\u00e3o teria ficado menor. Por que isso? Escalavre a carne entre os dedos do p\u00e9 que n\u00e3o vai achar o motivo. Comprima as costas contra a barra da jaula at\u00e9 que ela o parta em dois que n\u00e3o vai achar o motivo. Eu n\u00e3o tinha sa\u00edda, mas precisava arranjar uma, pois sem ela n\u00e3o podia viver. Caso permanecesse sempre colado \u00e0 parede daquele caixote teria esticado as canelas sem remiss\u00e3o. Mas na firma Hagenbeck o lugar dos macacos \u00e9 de encontro \u00e0 parede do caixote \u2014 pois bem, por isso deixei de ser macaco. Um racioc\u00ednio claro e belo que de algum modo eu devo ter chocado com a barriga, pois os macacos pensam com a barriga.<\/p>\n\n\n\n<p>Tenho medo de que n\u00e3o compreendam direito o que entendo por sa\u00edda. Emprego a palavra no seu sentido mais comum e pleno. \u00c9 intencionalmente que n\u00e3o digo liberdade. N\u00e3o me refiro a esse grande sentimento de liberdade por todos os lados. Como macaco talvez eu o conhecesse e travei conhecimento com pessoas que t\u00eam essa aspira\u00e7\u00e3o. Mas no que me diz respeito, eu n\u00e3o exigia liberdade nem naquela \u00e9poca nem hoje. Dito de passagem: \u00e9 muito frequente que os homens se ludibriem entre si com a liberdade. E assim como a liberdade figura entre os sentimentos mais sublimes, tamb\u00e9m o lud\u00edbrio correspondente figura entre os mais elevados. Muitas vezes vi nos teatros de variedades, antes da minha entrada em cena, um ou outro par de artistas \u00e0s voltas com os trap\u00e9zios l\u00e1 do alto junto ao teto. Eles se arrojavam, balan\u00e7avam, saltavam, voavam um para os bra\u00e7os do outro, um carregava o outro pelos cabelos presos nos dentes. \u201cIsso tamb\u00e9m \u00e9 liberdade humana\u201d, eu pensava, \u201cmovimento soberano.\u201d \u00d3 derris\u00e3o da sagrada natureza! Nenhuma constru\u00e7\u00e3o ficaria em p\u00e9 diante da gargalhada dos macacos \u00e0 vista disso.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o, liberdade eu n\u00e3o queria. Apenas uma sa\u00edda; \u00e0 direita, \u00e0 esquerda, para onde quer que fosse; eu n\u00e3o fazia outras exig\u00eancias; a sa\u00edda podia tamb\u00e9m ser apenas um engano; a exig\u00eancia era pequena, o engano n\u00e3o seria maior. Ir em frente, ir em frente! S\u00f3 n\u00e3o ficar parado com os bra\u00e7os levantados, comprimido contra a parede de um caixote.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje vejo claro: sem a m\u00e1xima tranquilidade interior eu nunca poderia ter escapado. E de fato talvez deva tudo o que me tornei \u00e0 tranquilidade que me sobreveio depois dos primeiros dias l\u00e1 no navio. Mas a tranquilidade, por sua vez, eu a devo sem d\u00favida \u00e0s pessoas do navio.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o homens bons, apesar de tudo. Ainda hoje gosto de me lembrar do som dos seus passos pesados que ent\u00e3o ressoavam na minha sonol\u00eancia. Tinham o h\u00e1bito de agarrar tudo com extrema lentid\u00e3o. Se algum queria co\u00e7ar os olhos, erguia a m\u00e3o como se ela fosse um prumo de chumbo. Suas brincadeiras eram grosseiras mas calorosas. Seu riso estava sempre misturado a uma tosse que soava perigosa mas n\u00e3o significava nada. Tinham sempre na boca alguma coisa para cuspir e para eles era indiferente onde cuspiam. Queixavam-se sempre de que minhas pulgas pulavam em cima deles, mas nunca ficaram seriamente zangados comigo por isso; sabiam muito bem que nos meus pelos as pulgas prosperam e que as pulgas s\u00e3o saltadoras; conformavam-se com isso. Quando estavam de folga, alguns sentavam-se em semic\u00edrculo \u00e0 minha volta; quase n\u00e3o falavam, mas arrulhavam uns para os outros; fumavam os cachimbos esticados sobre os caixotes; davam tapas nos joelhos assim que eu fazia o menor movimento e de vez em quando um deles pegava um pau e me fazia c\u00f3cegas onde me era agrad\u00e1vel. Se hoje eu fosse convidado a fazer uma viagem nesse navio certamente recusaria o convite, mas \u00e9 igualmente certo que l\u00e1 na coberta da embarca\u00e7\u00e3o eu n\u00e3o me entregaria apenas a m\u00e1s recorda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A tranquilidade que conquistei no c\u00edrculo dessas pessoas foi o que acima de tudo me impediu de qualquer tentativa de fuga. Da perspectiva de hoje me parece que eu teria no m\u00ednimo pressentido que precisava achar uma sa\u00edda caso quisesse viver, mas que essa sa\u00edda n\u00e3o devia ser alcan\u00e7ada pela fuga. N\u00e3o sei mais se a fuga era poss\u00edvel, por\u00e9m acredito nisso; a um macaco a fuga deveria ser sempre poss\u00edvel. Com os dentes que tenho hoje preciso ser cauteloso at\u00e9 no ato habitual de quebrar nozes, mas naquela \u00e9poca decerto eu teria conseguido, com o correr do tempo, partir nos dentes a fechadura. N\u00e3o o fiz. O que teria sido ganho com isso? Teriam me prendido de novo, mal a cabe\u00e7a estivesse de fora, e trancafiado numa jaula pior ainda; ou ent\u00e3o poderia ter fugido sem ser notado at\u00e9 o lado oposto, onde estavam os outros animais, quem sabe at\u00e9 \u00e0s cobras gigantescas, e exalado o \u00faltimo suspiro nos seus abra\u00e7os; ou ent\u00e3o conseguido escapar para o conv\u00e9s e saltado pela amurada: a\u00ed teria balan\u00e7ado um pouquinho sobre o oceano e me afogado. Atos de desespero. N\u00e3o fazia c\u00e1lculos t\u00e3o humanos, mas sob a influ\u00eancia do ambiente comportei-me como se os tivesse feito.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o fazia c\u00e1lculos, mas sem d\u00favida observava com toda a calma. Via aqueles homens andando de cima para baixo, sempre os mesmos rostos, os mesmos movimentos, muitas vezes me parecendo que eram apenas um. Aquele homem ou homens andavam pois sem impedimentos. Um alto objetivo come\u00e7ou a clarear na minha mente. Ningu\u00e9m me prometeu que se eu me tornasse como eles a grade seria levantada. N\u00e3o se fazem promessas como essa para realiza\u00e7\u00f5es aparentemente imposs\u00edveis. Mas se as realiza\u00e7\u00f5es s\u00e3o cumpridas, tamb\u00e9m as promessas aparecem em seguida, exatamente no ponto em que tinham sido inutilmente buscadas. Ora, naqueles homens n\u00e3o havia nada em si mesmo que me atra\u00edsse. Se eu fosse um adepto da j\u00e1 referida liberdade, teria com certeza preferido o oceano a essa sa\u00edda que se me mostrava no turvo olhar daqueles homens. Seja como for, por\u00e9m, eu os observava desde muito tempo antes que viesse a cogitar nessas coisas \u2014 sim, foram as observa\u00e7\u00f5es acumuladas as que primeiro me impeliram numa dire\u00e7\u00e3o definida.<\/p>\n\n\n\n<p>Era t\u00e3o f\u00e1cil imitar as pessoas! Nos primeiros dias eu j\u00e1 sabia cuspir. Cuspimos ent\u00e3o um na cara do outro; a \u00fanica diferen\u00e7a era que depois eu lambia a minha e eles n\u00e3o lambiam a sua. O cachimbo eu logo fumei como um velho; se depois eu ainda comprimia o polegar no fornilho, a coberta inteira do navio se rejubilava; s\u00f3 n\u00e3o entendi durante muito tempo a diferen\u00e7a entre o cachimbo vazio e o cachimbo cheio.<\/p>\n\n\n\n<p>O que me custou mais esfor\u00e7o foi a garrafa de aguardente. O cheiro me atormentava; eu me for\u00e7ava com todas as energias, mas passaram-se semanas antes que eu me dominasse. Curiosamente as pessoas levaram essas lutas interiores mais a s\u00e9rio do que qualquer outra coisa em mim. N\u00e3o distingo as pessoas nem na minha lembran\u00e7a, mas havia um que sempre voltava, sozinho ou com os camaradas, de dia, de noite, nas horas mais diferentes; colocava-se diante de mim com a garrafa e me dava aula. Ele n\u00e3o me compreendia, queria solucionar o enigma do meu ser. Desarrolhava devagar a garrafa e em seguida me fitava para verificar se eu havia entendido; concedo que sempre olhei para ele com uma aten\u00e7\u00e3o selvagem e atropelada; nenhum mestre de homem encontra em toda a volta da Terra um aprendiz de homem assim; depois que a garrafa estava desarrolhada, ele a erguia at\u00e9 a boca; eu a sigo com o olhar at\u00e9 a garganta; ele acena com a cabe\u00e7a, satisfeito comigo, e coloca a garrafa nos l\u00e1bios; encantado com o conhecimento gradativo, eu me co\u00e7o aos guinchos de alto a baixo e de lado a lado, onde cabe co\u00e7ar; ele se alegra, leva a garrafa \u00e0 boca e bebe um trago; impaciente e desesperado para imit\u00e1-lo eu me sujo na jaula, o que por seu turno lhe causa grande satisfa\u00e7\u00e3o; distanciando ent\u00e3o a garrafa e num arremesso al\u00e7ando-a outra vez, ele a esvazia de um s\u00f3 trago, inclinado para tr\u00e1s numa atitude de exagero did\u00e1tico. Exausto com tamanha exig\u00eancia n\u00e3o posso mais acompanh\u00e1-lo e fico pendurado fr\u00e1gil na grade enquanto ele encerra a aula te\u00f3rica alisando a barriga e arreganhando os dentes num sorriso.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 agora come\u00e7o o exerc\u00edcio pr\u00e1tico. J\u00e1 n\u00e3o estava esgotado demais pela aula te\u00f3rica? Certamente: esgotado demais. Faz parte do meu destino. Apesar disso estendo a m\u00e3o o melhor que posso para pegar a garrafa que me \u00e9 oferecida; desarrolho-a tr\u00eamulo; com esse sucesso se apresentam aos poucos novas for\u00e7as; ergo a garrafa \u2014 quase n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a do modelo original; levo-a aos l\u00e1bios e \u2014 com asco, com asco, embora ela esteja vazia e apenas o cheiro a encha, atiro-a com asco ao ch\u00e3o. Para tristeza do meu professor, para tristeza maior de mim mesmo; nem com ele nem comigo mesmo eu me reconcilio por n\u00e3o ter esquecido \u2014 ap\u00f3s jogar fora a garrafa \u2014 de passar a m\u00e3o com perfei\u00e7\u00e3o na minha barriga e de arreganhar os dentes num sorriso.<\/p>\n\n\n\n<p>Com demasiada frequ\u00eancia a aula transcorria assim. E para honra do meu professor ele n\u00e3o ficava bravo comigo; \u00e9 certo que \u00e0s vezes ele segurava o cachimbo aceso junto \u00e0 minha pele at\u00e9 come\u00e7ar a pegar fogo em algum ponto que eu n\u00e3o alcan\u00e7ava, mas ele mesmo o apagava depois com a sua m\u00e3o boa e gigantesca; n\u00e3o estava bravo comigo, percebia que lut\u00e1vamos do mesmo lado contra a natureza do macaco e que a parte mais pesada ficava comigo.<\/p>\n\n\n\n<p>De qualquer modo, que vit\u00f3ria foi tanto para ele como para mim quando ent\u00e3o uma noite, diante de um c\u00edrculo grande de espectadores \u2014 talvez fosse uma festa, tocava uma vitrola, um oficial passeava entre as pessoas \u2014, quando nessa noite, sem ser observado, eu agarrei uma garrafa de aguardente deixada por distra\u00e7\u00e3o diante da minha jaula, desarrolhei-a segundo as regras, sob a aten\u00e7\u00e3o crescente das pessoas, levei-a aos l\u00e1bios e sem hesitar, sem contrair a boca, como um bebedor de c\u00e1tedra, com os olhos virados, a goela transbordando, eu a esvaziei de fato e de verdade; joguei fora a garrafa n\u00e3o mais como um desesperado, mas como um artista; na realidade esqueci de passar a m\u00e3o na barriga, mas em compensa\u00e7\u00e3o \u2014 porque n\u00e3o podia fazer outra coisa, porque era impelido para isso, porque os meus sentidos rodavam \u2014 eu bradei sem mais \u201cAl\u00f4!\u201d, prorrompi num som humano, saltei com esse brado dentro da comunidade humana e senti, como um beijo em todo o meu corpo que pingava de suor, o eco \u2014 \u201cOu\u00e7am, ele fala!\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Repito: n\u00e3o me atra\u00eda imitar os homens; eu imitava porque procurava uma sa\u00edda, por nenhum outro motivo. Com essa vit\u00f3ria tamb\u00e9m n\u00e3o se tinha feito muita coisa. A voz voltou a me falhar imediatamente; s\u00f3 apareceu meses depois; a avers\u00e3o \u00e0 garrafa veio ainda mais fortalecida. Mas fosse como fosse a dire\u00e7\u00e3o a seguir havia sido dada de uma vez por todas.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando em Hamburgo fui entregue ao primeiro amestrador, reconheci logo as duas possibilidades que me estavam abertas: jardim zool\u00f3gico ou teatro de variedades. N\u00e3o hesitei. Disse a mim mesmo: empregue toda a energia para ir ao teatro de variedades; essa \u00e9 a sa\u00edda; o jardim zool\u00f3gico \u00e9 apenas uma nova jaula; se voc\u00ea for para ele, est\u00e1 perdido.<\/p>\n\n\n\n<p>E eu aprendi, senhores. Ah, aprende-se o que \u00e9 preciso que se aprenda; aprende-se quando se quer uma sa\u00edda; aprende-se a qualquer custo. Fiscaliza-se a si mesmo com o chicote; \u00e0 menor resist\u00eancia flagela-se a pr\u00f3pria carne. A natureza do macaco escapou de mim fren\u00e9tica, dando cambalhotas, de tal modo que com isso meu primeiro professor quase se tornou ele pr\u00f3prio um s\u00edmio, teve de renunciar \u00e0s aulas e precisou ser internado num sanat\u00f3rio. Felizmente saiu logo de l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas eu consumi muitos professores, alguns at\u00e9 ao mesmo tempo. Quando j\u00e1 havia me tornado mais seguro das minhas aptid\u00f5es e o p\u00fablico acompanhava meus progressos, come\u00e7ou a luzir o meu futuro: contratei pessoalmente os professores, mandei-os sentar em cinco aposentos enfileirados e aprendi com todos eles, simultaneamente, \u00e0 medida que saltava de modo ininterrupto de um aposento a outro.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses meus progressos! Essa penetra\u00e7\u00e3o por todos os lados dos raios do saber no c\u00e9rebro que despertava! N\u00e3o nego: faziam-me feliz. Mas tamb\u00e9m admito: j\u00e1 ent\u00e3o n\u00e3o os superestimava, muito menos hoje. Atrav\u00e9s de um esfor\u00e7o que at\u00e9 agora n\u00e3o se repetiu sobre a terra, cheguei \u00e0 forma\u00e7\u00e3o m\u00e9dia de um europeu. Em si mesmo talvez isso n\u00e3o fosse nada, mas \u00e9 alguma coisa, uma vez que me ajudou a sair da jaula e me propiciou essa sa\u00edda especial, essa sa\u00edda humana. Existe uma excelente express\u00e3o idiom\u00e1tica alem\u00e3:<em>sich in die B\u00fcsche schlagen<\/em>: foi o que fiz, ca\u00ed fora. Eu n\u00e3o tinha outro caminho, sempre supondo que n\u00e3o era poss\u00edvel escolher a liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Se abranjo com o olhar minha evolu\u00e7\u00e3o e sua meta at\u00e9 agora, nem me queixo nem me vejo satisfeito. As m\u00e3os nos bolsos das cal\u00e7as, a garrafa de vinho em cima da mesa, estou metade deitado, metade sentado na cadeira de balan\u00e7o e olho pela janela. Se vem uma visita, eu a recebo como conv\u00e9m. Meu empres\u00e1rio est\u00e1 sentado na antessala; se toco a campainha ele vem e ouve o que tenho a dizer; \u00e0 noite quase sempre h\u00e1 representa\u00e7\u00e3o e tenho sucessos com certeza dif\u00edceis de superar. Se chego em casa tarde da noite, vindo de banquetes, sociedades cient\u00edficas, reuni\u00f5es agrad\u00e1veis, est\u00e1 me esperando uma pequena chimpanz\u00e9 semiamestrada e eu me permito passar bem com ela \u00e0 maneira dos macacos. Durante o dia n\u00e3o quero v\u00ea-la; pois ela tem no olhar a loucura do perturbado animal amestrado; isso s\u00f3 eu reconhe\u00e7o e n\u00e3o consigo suport\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Seja como for, no conjunto eu alcan\u00e7o o que queria alcan\u00e7ar. N\u00e3o se diga que o esfor\u00e7o n\u00e3o valeu a pena. No mais n\u00e3o quero nenhum julgamento dos homens, quero apenas difundir conhecimentos; fa\u00e7o t\u00e3o somente um relat\u00f3rio; tamb\u00e9m aos senhores, eminentes membros da Academia, s\u00f3 apresentei um relat\u00f3<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>KAFKA, Franz. Um relat\u00f3rio para uma academia. In: Um m\u00e9dico rural. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1999. Eminentes senhores da Academia: Conferem-me a honra de me convidar a oferecer \u00e0 Academia um relat\u00f3rio sobre a minha pregressa vida de macaco. N\u00e3o posso infelizmente corresponder ao convite nesse sentido. 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