“NOVO” – “O guarda da cripta”, de Franz Kafka [Tradução de Marcelo Backes]

Imagem retirada do site da Revista Cult.

Drama

Escritório pequeno, janela alta, diante dela uma copa de árvore desnuda. Príncipe (à escrivaninha, recostado à cadeira, olhando pela janela), camareiro (barba branca e cheia, jovialmente enfiado em um casaco justo, na janela ao lado da porta central).

(Pausa.)

PRÍNCIPE (Voltando-se da janela.): E então?
CAMAREIRO: Não posso recomendá-lo, alteza.
PRÍNCIPE: Por quê?
CAMAREIRO: No momento, não consigo formular minhas reservas com precisão. Nem de longe seria tudo o que eu pretendo dizer se eu mencionasse apenas a sentença humana que declara: deve-se deixar os mortos descansando.
PRÍNCIPE: É o que eu também penso.
CAMAREIRO: Nesse caso, não entendi direito.
PRÍNCIPE: É o que parece.

(Pausa.)

PRÍNCIPE: A única coisa que vos perturba na questão talvez seja apenas a estranheza de eu não ter dado a ordem sem mais nem menos, e sim vos tê-la anunciado antes.
CAMAREIRO: O anúncio, de qualquer modo, me dá uma responsabilidade maior, à qual preciso me esforçar em corresponder.
PRÍNCIPE: Nada de responsabilidade!

(Pausa.)

PRÍNCIPE: Mais uma vez, então. Até agora a cripta no Parque Frederico era vigiada por um guarda que tem uma casinha na qual mora, à entrada do parque. Havia alguma coisa a reparar nisso tudo?
CAMAREIRO: Com certeza não. A cripta tem mais de quatrocentos anos, e durante esse tempo todo também foi vigiada desse mesmo modo.
PRÍNCIPE: Poderia se tratar de um abuso. Por acaso não é um abuso?
CAMAREIRO: É uma instituição necessária.
PRÍNCIPE: Quer dizer então que é uma instituição necessária. Agora já estou há tanto tempo aqui no castelo de campo, consigo vislumbrar detalhes que até o momento eram confiados a estranhos – eles se mostram eficazes só aos trancos e barrancos – e descobri: o guarda lá em cima no parque não basta, é necessário que um guarda vigie também na parte de baixo, junto à cripta. Talvez não se trate de um encargo agradável. Mas a experiência ensina que para qualquer posto se encontram pessoas dispostas e adequadas.
CAMAREIRO: É claro que tudo que Vossa Alteza ordenar será executado, ainda que a necessidade da ordem não seja compreendida.
PRÍNCIPE (Enfurecido.): Necessidade! Por acaso a guarda no portão do parque é necessária? O Parque Frederico é uma parte do parque do castelo, é completamente envolvido por ele, e o parque do castelo é vigiado à farta, inclusive militarmente. Por que, então, vigiar de modo especial o Parque Frederico? Isso não é uma simples formalidade? Um leito de morte amigável para o pobre ancião responsável pela guarda por lá?
CAMAREIRO: É uma formalidade, mas uma formalidade necessária. Testemunha do respeito ante os grandes mortos.
PRÍNCIPE: E uma guarda na própria cripta?
CAMAREIRO: Ela teria, segundo a minha opinião, um ressaibo policialesco, ela seria uma guarda real de coisas irreais e distantes do humano.
PRÍNCIPE: Essa cripta é, na minha família, a fronteira entre o humano e o resto, e eu quero estabelecer uma guarda nessa fronteira. Acerca da – conforme vós vos expressais – necessidade policialesca da mesma podemos interrogar o próprio guarda. Eu mandei que ele viesse. (Faz soar a campainha.)
CAMAREIRO: Trata-se, se é que posso me permitir a observação, de um ancião confuso, já completamente fora de si.
Príncipe: Se é assim, isso seria apenas mais uma prova da necessidade de um reforço da guarda em meu favor e no sentido que imagino.

(Criado.)

PRÍNCIPE: O guarda da cripta!
(O criado conduz o guarda para dentro, segura-o por baixo do braço, do contrário, ele desabaria. Uma libré solene e antiga, vermelha, balançando larga em torno dele, botões de prata lustrados, diferentes honrarias. Quepe na mão. Ele treme sob o olhar dos senhores.)
PRÍNCIPE: Para o leito de repouso!

(O criado o deita e sai. Pausa. Apenas o estertorar baixinho do guarda.)

PRÍNCIPE (Mais uma vez na cadeira de braços.): Estás ouvindo?
GUARDA (Se esforça em responder, mas não consegue, está esgotado demais, volta a desabar na cama.): …

PRÍNCIPE: Tenta buscar forças. Nós esperaremos.
CAMAREIRO (Curvado para o príncipe.): A respeito de que assunto este homem poderia dar informações, e de fato informações importantes ou dignas de crença? Seria melhor levá-lo o mais rápido possível para a cama.
GUARDA: Para a cama não… ainda tenho forças… relativamente… ainda sou um homem em plena forma.
PRÍNCIPE: Assim é que deveria ser. Tu tens apenas 60 anos. Mas, de qualquer modo, pareces estar bastante fraco.
GUARDA: Logo terei me restabelecido… logo.
PRÍNCIPE: Isso não foi uma censura. Apenas lamento que estejas tão mal. Tens algo do que te queixar?
GUARDA: Trabalho pesado… trabalho pesado… não me queixo… mas esgota muito… lutas no ringue todas as noites.
PRÍNCIPE: O que estás dizendo?
GUARDA: Trabalho pesado.
PRÍNCIPE: Mas disseste mais uma coisa.
GUARDA: Lutas no ringue.
PRÍNCIPE: Lutas no ringue? Que lutas são essas?
GUARDA: Com os antepassados saudosos.
PRÍNCIPE: Isso eu não entendo. Tens sonhos pesados?
GUARDA: Nada de sonhos… não durmo em noite alguma.
PRÍNCIPE: Mas então conte dessas… dessas lutas no ringue.
GUARDA (Fica calado.): …
PRÍNCIPE (Ao camareiro.): Por que ele se cala?
CAMAREIRO (Corre até o guarda.): Tudo pode chegar ao fim para ele a qualquer momento.
PRÍNCIPE (Parado junto à mesa.):…
GUARDA (Quando o camareiro o toca.): Fora, fora, fora! (Luta com os dedos do camareiro, depois se joga na cama chorando.)
PRÍNCIPE: Nós o estamos torturando.
CAMAREIRO: Com o quê?
PRÍNCIPE: Não sei.
CAMAREIRO: O caminho para o castelo, a apresentação, a vista de Vossa Alteza, as perguntas… a tudo isso ele não tem mais juízo suficiente para contrapor o que quer que seja.
PRÍNCIPE (Não cessa de olhar para o guarda.): Não é isso. (Vai para o leito de repouso, curva-se para o guarda, toma seu pequeno crânio entre as mãos.) Não precisa chorar. Por que estás chorando? Nós queremos o teu bem. Eu mesmo não considero fácil o teu encargo. Com certeza alcançaste merecimentos servindo a minha casa. Portanto, não chora mais e conta.
GUARDA: Mas se eu temo tanto aquele senhor ali… (Olha para o camareiro de modo ameaçador, não amedrontado.)
PRÍNCIPE (Ao camareiro.): Vós precisais ir, caso ele deva contar.
CAMAREIRO: Mas vede, alteza, ele tem espuma na boca, está gravemente enfermo.
PRÍNCIPE (Distraído.): Sim, ide, não demorará muito.

(O camareiro sai. O príncipe senta-se à beira do leito de repouso. Pausa.)

PRÍNCIPE: Por que tu sentiste medo dele?
GUARDA (Chamativamente contido.): Eu não senti medo. Sentir medo de um criado?
PRÍNCIPE: Ele não é criado. É um conde, livre e rico.
GUARDA: De qualquer modo, apenas um criado. Tu és o senhor.
PRÍNCIPE: Se fazes questão de que seja assim… Mas tu mesmo disseste que sentes medo dele.
GUARDA: Tenho coisas a contar dele que apenas tu deves saber. Será que eu já não falei demais na frente dele?
PRÍNCIPE: Quer dizer que somos íntimos, mesmo que eu tenha te visto hoje pela primeira vez.
GUARDA: Visto pela primeira vez, mas sabes desde sempre que eu (Erguendo o indicador.) tenho o mais importante dos cargos da corte. Tu mesmo o reconheceste publicamente ao me conceder a medalha Vermelho-Fogo. Aqui! (Ergue a medalha presa à casaca.)
PRÍNCIPE: Não, esta é uma medalha dada quando alguém atinge 25 anos de trabalho na corte. Foi meu avô que a concedeu a ti. Mas também eu vou te distinguir.
GUARDA: Faz o que achares bom e corresponda à importância dos meus serviços. Já sirvo há trinta anos como guarda da cripta.
PRÍNCIPE: Não a mim, meu governo mal dura um ano.
GUARDA (Perdido em pensamentos.): Trinta anos.

(Pausa.)

GUARDA (Voltando mais ou menos à observação do príncipe.): As noites lá demoram anos.
PRÍNCIPE: Ainda não recebi nenhum relatório da tua repartição. Como é o trabalho?
GUARDA: Igual todas as noites. Todas as noites se chega perto de estourar a veia do pescoço.
PRÍNCIPE: E o trabalho é apenas noturno? Um trabalho noturno para ti, ancião?
GUARDA: Justamente isso, alteza. O trabalho é diurno. Um posto para preguiçosos. Fica-se sentado diante da porta de casa, a boca aberta ao clarão do sol. Às vezes, o cão de guarda bota as patas dianteiras sobre teus joelhos e depois volta a se deitar. Isso é tudo o que acontece.
PRÍNCIPE: Pois então.

GUARDA (Assentindo.): Mas ele foi transformado em trabalho noturno.

PRÍNCIPE: E por quem?
GUARDA: Pelos senhores da cripta.
PRÍNCIPE: E tu os conheces?
GUARDA: Sim.
PRÍNCIPE: Eles se apresentam diante de ti?
GUARDA: Sim.
PRÍNCIPE: Inclusive ontem à noite.
GUARDA: Inclusive.
PRÍNCIPE: E como foi?

GUARDA (Sentando ereto.): Como sempre.

PRÍNCIPE (Levanta-se.): …
GUARDA: Como sempre. Até a meia-noite fica tudo em paz. Fico deitado – peço perdão por isso – na cama, e fumo meu cachimbo. Na cama ao lado, dorme minha filha. À meia-noite, ouço a primeira batida na janela. Olho para o relógio. Sempre pontualmente. A batida se repete ainda duas vezes, mistura-se às batidas do relógio da torre e não é mais fraca. Não são os nós de dedos humanos. Mas conheço tudo isso e não me mexo. Então ouço um pigarrear lá fora, parece que se estranha o fato de eu não abrir a janela apesar dessas batidas. Que sua Alteza Real também se admire! O velho guarda continua a postos! (Mostra o punho.)
PRÍNCIPE: Estás me ameaçando?
GUARDA (Não entende imediatamente.): Não a ti. A quem está diante da janela!
PRÍNCIPE: E quem é?
GUARDA: Logo ficará claro. De um só golpe, se abrem a janela e a persiana. Mal chego a ter tempo de jogar o cobertor sobre o rosto de minha filha. A tempestade sopra para dentro, e num instante apaga a luz. Duque Frederico! Seu rosto barbudo e seus cabelos tapam completamente minha pobre janela. Como ele mudou ao longo dos séculos. Quando abre a boca para falar, o vento lhe sopra a barba antiga entre os dentes e ele a morde.
PRÍNCIPE: Só um momento, dizes duque Frederico. Que Frederico?
GUARDA: O duque Frederico, apenas duque Frederico.
PRÍNCIPE: É assim que ele diz que é seu nome?
GUARDA (Amedrontado.): Não, ele não diz seu nome.
PRÍNCIPE: E mesmo assim sabes… (Interrompendo-se.) Continue contando!
GUARDA: Devo continuar contando?
PRÍNCIPE: Mas é claro. Isso me interessa muito, há aqui um erro na distribuição do trabalho. Tu estavas sobrecarregado.
GUARDA (Ajoelhando-se.): Não tome o posto de mim, alteza. Se vivi tanto tempo por ti, permite também que eu morra por ti! Não mande emparedar o túmulo que busco com tanto empenho. Gosto de servir e ainda tenho capacidade de fazê-lo. Uma audiência como a de hoje, um descanso junto ao senhor, me dá forças para dez anos.
PRÍNCIPE (Volta a sentá-lo no leito de repouso.): Ninguém vai tomar teu posto. Como eu poderia abrir mão de tua experiência por lá? Mas vou determinar que um guarda te auxilie e tu te tornarás chefe da guarda.
GUARDA: Não sou mais suficiente? Por acaso deixei passar alguém, algum dia?
PRÍNCIPE: Para dentro do Parque Frederico?
GUARDA: Não, para fora do parque. Por acaso alguém quer entrar? Se alguma vez alguém fica parado diante das grades, eu aceno com a mão da janela e ele sai correndo. Mas sair, todos querem sair. Depois da meia-noite, podes encontrar reunidas em torno da minha casa todas as vozes dos túmulos. Acredito que apenas por se acotovelarem tanto é que elas não entram todas, com tudo aquilo que são, pelo buraco estreito da minha janela. Mas quando as coisas ficam complicadas demais, pego o lampião debaixo da cama, agito-o bem alto e eles se separam, seres incompreensíveis, afastando-se uns dos outros com gargalhadas e lamentos; no entanto, até mesmo na última moita, na extremidade do parque, eu ainda os ouço farfalhando. Mas logo eles voltam a se juntar.
PRÍNCIPE: E eles fazem pedidos?
GUARDA: Primeiro dão ordens. O duque Frederico antes de todos os outros. Nenhum ser vivo é tão confiante. Há trinta anos, todas as noites, ele espera me encontrar combalido uma única vez.
PRÍNCIPE: Se ele aparece há trinta anos, não pode ser o duque Frederico, que morreu há apenas 15 anos. Mas ele também é o único com esse nome na cripta.
GUARDA (Tocado demais pelo que foi contado.): Não sei nada disso, alteza, não estudei. Sei apenas como ele começa. “Cachorro velho”, ele começa dizendo junto à janela, “os senhores batem e tu ficas deitado em tua cama suja”. Eles, aliás, sempre têm ódio às camas. E então falamos todas as noites quase a mesma coisa. Ele lá fora, eu diante dele com as costas voltadas para a porta. Eu digo: “Trabalho apenas de dia.” Ele, o senhor, volta-se e grita para o parque: “Ele trabalha apenas de dia.” A resposta é uma gargalhada geral de toda a nobreza reunida. Então o duque volta a dizer, dirigindo-se a mim: “Mas é dia.” Eu, logo depois: “O senhor se engana.” O duque: “Dia ou noite, abre o portão!” Eu: “Isso é contra as regras do meu trabalho.” E eu aponto o bastão do cachimbo para uma folha na parede. O duque: “Mas tu és o nosso guarda.” Eu: “Vosso guarda, mas empregado pelo príncipe regente.” Ele: “Nosso guarda, e é isso que importa. Portanto abre, e imediatamente.” Eu: “Não.” Ele: “Estúpido, vais perder teu emprego. O duque Leo nos convidou hoje.”
PRÍNCIPE (Imediatamente.): Eu?
GUARDA: Tu.

(Pausa.)

GUARDA: Quando ouço teu nome, perco minha segurança. Por isso logo me recosto com cautela à porta, que então passa a ser a responsável quase única por me deixar ereto. Lá fora todos cantam teu nome. “Onde está o convite?”, eu pergunto baixinho. “Animal de cama”, grita ele, “tu duvidas de minha palavra de duque?”. Eu digo: “Não tenho nenhuma ordem nesse sentido, e por isso não vou abrir, não vou abrir e não vou abrir.” “Ele não vai abrir”, grita o duque para fora, “avante, portanto, todos, a dinastia inteira, contra o portão, vamos abrir nós mesmos”. E no momento está tudo vazio diante da minha janela.

(Pausa.)

PRÍNCIPE: Isso é tudo?
GUARDA: Como assim? Só agora é que começa meu verdadeiro serviço. Saio porta afora, ando em torno da casa e logo me choco com o duque e já balançamos em meio à luta. Ele, tão alto, eu, tão baixo, ele, tão largo, eu, tão magro, eu luto apenas com seus pés, mas às vezes ele me ergue e então eu luto também com a parte de cima do corpo. Em torno de nós estão todos os seus camaradas, reunidos em círculo, e riem de mim. Um, por exemplo, corta minhas calças na parte de trás, e então todos também brincam com a ponta da minha camisa, enquanto eu luto. Incompreensível por que eles riem, se até agora sempre acabei vencendo.
PRÍNCIPE: Mas como é possível que venças? Tens armas?
GUARDA: Só nos primeiros anos levei armas comigo. Mas em que elas poderiam me ajudar contra ele? Apenas eram um peso a mais. Nós lutamos somente com os punhos, ou, na verdade, apenas com a força da respiração. E tu sempre estás em meus pensamentos.

(Pausa.)

GUARDA: Mas jamais duvido da minha vitória. Só às vezes temo que o duque possa me perder entre seus dedos e não mais saber que está lutando.
PRÍNCIPE: E quando vences, enfim?
GUARDA: Quando amanhece. Então ele me joga ao chão e cospe em mim, e assim confessa sua derrota. Mas eu preciso ficar deitado ainda uma hora antes de conseguir respirar bem de novo.

(Pausa.)

PRÍNCIPE (Levantando-se.): Mas me dize uma coisa, não sabes realmente o que eles querem?
GUARDA: Sair do parque.
PRÍNCIPE: Mas por quê?
GUARDA: Isso eu não sei.
PRÍNCIPE: Jamais perguntaste a eles?
GUARDA: Nunca.
PRÍNCIPE: Por quê?
GUARDA: Tenho vergonha. Mas, se quiseres, vou perguntar hoje.
PRÍNCIPE (Assustando-se, em voz alta.): Hoje?
GUARDA (Como um perito.): Sim, hoje.
PRÍNCIPE: E não tens a menor ideia do que eles querem?
GUARDA (Pensativo.): Não.

(Pausa.)

GUARDA: Às vezes, talvez eu ainda deva dizer isso, vem até mim, bem cedo, quando ainda estou caído no chão, sem fôlego – me sinto tão fraco nesses momentos até para abrir os olhos –, um ser suave, úmido e peludo, uma retardatária, a condessa Isabella. Ela me apalpa em vários lugares, segura minha barba, passa todo o seu comprimento pelo meu pescoço, por baixo do queixo, e costuma dizer: “Podes não deixar os outros passar, mas a mim, a mim, sim, deixa sair.” Eu sacudo negativamente a cabeça tanto quanto posso. “Para ir até o príncipe Leo e lhe estender a mão.” Eu não paro de sacudir a cabeça. “Só a mim, só a mim”, eu ainda ouço, e então ela já se foi. E minha filha chega com cobertores, me envolve e espera perto de mim até que eu consiga caminhar sozinho. Uma menina extraordinariamente boa.
PRÍNCIPE: Um nome desconhecido, Isabella.

(Pausa.)

PRÍNCIPE: Estender-me a mão. (Vai até a janela, olha para fora.)

(O criado entra pela porta central.)

CRIADO: Vossa Alteza, a honorável senhora princesa pede para chamá-lo.
PRÍNCIPE (Olha distraído para o criado – depois para o guarda.): Espere até que eu venha. (Sai pela esquerda.)

(Imediatamente chega o camareiro pela porta central, depois o preceptor-chefe – um homem jovem, uniforme de oficial.)

GUARDA (Abaixa-se, escondendo-se atrás do leito de repouso como se visse fantasmas, e meneia as mãos como se lutasse.)
PRECEPTOR-CHEFE: O príncipe saiu?
CAMAREIRO: Seguindo seu conselho, a senhora princesa mandou chamá-lo agora.
PRECEPTOR-CHEFE: Muito bem. (Volta-se de repente, curva-se por trás do leito de repouso.) E tu, fantasma miserável, ousas realmente vir até o castelo do príncipe? Não temes o pontapé formidável que te botará portão afora?
GUARDA: Eu estou, eu estou…
PRECEPTOR-CHEFE: Silêncio, primeiro fique em silêncio, em completo silêncio… E sente-se aqui, no cantinho! (Ao camareiro:) Agradeço ao senhor as notícias acerca dos novos humores principescos.
CAMAREIRO: O senhor mandou me perguntar.
PRECEPTOR-CHEFE: Pelo menos isso. E agora uma palavra de confiança. Intencionalmente diante dessa coisa aí. O senhor, senhor conde, está flertando com o partido inimigo.
CAMAREIRO: Isso é uma acusação?
PRECEPTOR-CHEFE: Por enquanto, é uma acusação.
CAMAREIRO: Então posso responder. Eu não flerto com o partido inimigo, pois não o reconheço. Sinto as correntes políticas, mas não mergulho nelas. Ainda sou um produto da política aberta que valia sob o reinado do duque Frederico. À época, a única política no serviço da corte era servir ao príncipe. Uma vez que ele era um solteirão, isso ficou mais fácil, mas não deveria jamais ser difícil.
PRECEPTOR-CHEFE: Bem razoável. Só que o próprio nariz – por mais fiel que seja – jamais mostra o caminho certo de modo duradouro; este é apontado apenas pelo juízo. O juízo, no entanto, precisa se decidir. Dado o caso de que o príncipe esteja se desviando do caminho: servimo-lo se o acompanhamos para baixo ou se – com toda a obediência – o instamos a voltar? Sem dúvida, se o instamos a voltar.
CAMAREIRO: O senhor veio de uma corte estranha com a princesa, está há meio ano aqui e já quer logo conduzir os padrões que definem o que é bom e o que é mau nas complicadas relações da corte?
PRECEPTOR-CHEFE: Quem pisca vê apenas complicações. Quem mantém os olhos abertos vê, tanto na primeira hora como depois de cem anos, o que é eternamente claro. Aqui, contudo, vê o tristemente claro, mas que já nos próximos dias se aproximará de uma decisão que esperamos seja boa.
CAMAREIRO: Não posso acreditar que a decisão que o senhor quer encaminhar, da qual, aliás, conheço apenas o anúncio, será uma boa decisão. Temo que o senhor compreenda mal os nossos príncipes, a corte e tudo por aqui.
PRECEPTOR-CHEFE: Se compreendo ou não compreendo, a situação atual é insustentável.
CAMAREIRO: Ela pode até ser insustentável, mas surge da essência das coisas por aqui, e nós teremos de sustentá-la até o fim.
PRECEPTOR-CHEFE: Mas não a princesa, nem eu, nem os que estão conosco.
CAMAREIRO: Onde, então, o senhor vê o aspecto insustentável?
PRECEPTOR-CHEFE: Justamente em face da decisão, quero falar com toda a clareza. O príncipe tem uma feição dupla. Uma delas se ocupa do governo e oscila distraída diante do povo, não observa os próprios direitos. A outra procura, é preciso reconhecer, de modo bem preciso, o reforço de seu fundamento. Procura-o no passado, e lá mergulha cada vez mais fundo. Que desconhecimento da situação! Um desconhecimento, que não é sem grandeza, que, no entanto, é maior em sua deficiência do que em sua visão. Como o senhor é capaz de não ver isso?
CAMAREIRO: Não me volto contra a descrição do problema, apenas contra o veredicto.
PRECEPTOR-CHEFE: Contra o veredicto? Mas, na esperança de contar com sua concordância, o veredicto ainda foi bem mais suave do que de fato deveria ser, segundo eu penso. E se ainda não mandei executar o mesmo veredicto, é apenas para poupar o senhor. Mas só uma coisa: o príncipe, na realidade, não necessita de nenhum reforço de seu fundamento. Que ele faça uso de todos os meios de poder de que dispõe no momento, e haverá de chegar à conclusão de que eles são suficientes para conseguir tudo o que a responsabilidade mais atilada pode exigir dele diante de Deus e dos homens. Mas ele se esquiva do equilíbrio da vida, e está a caminho de se tornar um tirano.
CAMAREIRO: E seu comportamento humilde!
PRECEPTOR-CHEFE: Humildade apenas de uma das feições, porque ele precisa de todas as forças para a segunda, que junta o fundamento que, por exemplo, deve ser suficiente para a Torre de Babel. Esse trabalho precisa ser impedido, e essa deveria ser a única política daqueles que se preocupam com sua existência pessoal, com o principado, com a princesa e quem sabe até mesmo com o príncipe.
CAMAREIRO: “Quem sabe até mesmo”… O senhor está realmente sendo muito sincero. Sua sinceridade, para dizer a verdade, me faz tremer ante a decisão anunciada. E lamento, conforme, aliás, lamentei diversas vezes nos últimos tempos, ser fiel ao príncipe, mesmo que para tanto seja obrigado a deixar de defender a mim mesmo.
PRECEPTOR-CHEFE: Tudo está claro. O senhor não flerta com o partido inimigo, mas inclusive lhe estende uma mão. Apenas uma, no entanto, e isso é digno de louvor para um antigo funcionário da corte. Mas sua única esperança permanecerá sendo a de que nosso grande exemplo leve o senhor conosco.
CAMAREIRO: O que eu puder fazer contra isso farei.
PRECEPTOR-CHEFE: Não tenho mais medo disso. (Apontando para o guarda.) E tu, que só sabes ficar sentado aí, tão quietinho, entendeste tudo o que foi dito agora?
CAMAREIRO: O guarda da cripta?
PRECEPTOR-CHEFE: O guarda da cripta. É provável que se tenha de vir do estrangeiro para reconhecê-lo. Não é verdade, meu jovem, seu velho corujinha? O senhor deveria vê-lo voando uma vez à noite pela floresta, nenhum atirador consegue acertá-lo. Mas de dia se encolhe e se esconde em um canto qualquer.
CAMAREIRO: Não estou entendendo.
GUARDA (Quase chorando.): O senhor briga comigo e eu não sei por quê. Permita que eu vá para casa. Não sou nada de ruim, apenas o guarda da cripta.
CAMAREIRO: O senhor desconfia dele.
PRECEPTOR-CHEFE: Desconfiar dele? Não, para isso ele é insignificante demais. Mas quero deitar minha mão sobre ele mesmo assim. Penso – e o senhor pode chamar a isso de capricho ou de crendice – que ele não é apenas um instrumento do mal, mas sim um trabalhador autônomo, aliás, muito honrado, em favor do mal.
CAMAREIRO: Ele já serve a corte há talvez trinta anos com toda a tranquilidade, sem provavelmente jamais ter estado no castelo.
PRECEPTOR-CHEFE: Ah, toupeiras assim constroem longas tocas antes de aparecer. (Voltando-se para o guarda de repente.) Primeiro, fora com esse daí! (Para o criado.) Tu vais levá-lo ao Parque Frederico, ficarás com ele e não o deixarás sair mais até ordem em contrário.
GUARDA (Com muito medo.): Mas eu devo esperar por Sua Alteza o príncipe.
PRECEPTOR-CHEFE: Engana-te… Vá embora daqui.
CAMAREIRO: Ele precisa ser poupado. É um homem velho e doente, e o príncipe de algum modo gosta dele.
GUARDA (Curvando-se profundamente diante do camareiro.)
PRECEPTOR-CHEFE: Como? (Ao criado.) Trate-o com cuidado, poupando-o, mas leve-o embora daqui de uma vez por todas! E rápido!
CRIADO (Quer agarrar o guarda.): 
CAMAREIRO (Colocando-se no meio deles.): Não, é preciso trazer um carro.
PRECEPTOR-CHEFE: Esse é o ar da corte. Não consigo distinguir o gosto de um só grão de sal. Um carro, pois. Vais conduzir essa preciosidade em um carro. Mas saiam já do recinto, os dois. (Ao camareiro.) O comportamento do senhor me diz que…

(O guarda desaba com um pequeno grito no caminho até a porta.)

PRECEPTOR-CHEFE (Golpeando o chão com os pés.): É impossível se livrar dele. Carregue-o nos braços, então, caso não haja outro jeito. Entende de uma vez por todas o que se quer de ti.
CAMAREIRO: O príncipe!
CRIADO (Abre a porta à esquerda.): 
PRECEPTOR-CHEFE: Ah! (Olha para o guarda.) Eu deveria saber, fantasmas não podem ser transportados.

(Entra o príncipe e, em passo rápido, atrás dele, a princesa, mulher jovem e morena, dentes cerrados, fica parada à porta.)

PRÍNCIPE: O que foi que aconteceu?
PRECEPTOR-CHEFE: O guarda se sentiu mal, eu queria mandar levá-lo embora daqui.
PRÍNCIPE: Deveriam ter me informado. Já buscaram um médico?
CAMAREIRO: Vou mandar chamá-lo. (Sai às pressas pela porta central, volta logo depois.)
PRÍNCIPE (Enquanto se ajoelha junto ao guarda.): Preparem uma cama para ele. Busquem a maca! O médico já está vindo? Quanto tempo ainda ele vai demorar? O pulso está tão fraco. O coração não pode mais ser sentido. As miseráveis costelas à vista. Como tudo isso está gasto. (Levanta-se de repente, pega um copo d’água, enquanto olha à sua volta.) Todo mundo tão imóvel. (Logo volta a se ajoelhar, umedece o rosto do guarda.)Eis que já está respirando melhor. Não haverá de ser tão ruim, um tronco saudável, mesmo na pior das misérias, ele não falha. Mas o médico, onde está o médico? (Enquanto o príncipe olha para a porta, o guarda ergue a mão e acaricia a face do soberano.)

(A princesa desvia os olhos para a janela. O criado entra com a maca, o príncipe ajuda a botar o guarda sobre ela.)

PRÍNCIPE: Agarrem-no com suavidade. Ah, com vossas patas! Ergam um pouco a cabeça. Mais perto da maca. O travesseiro mais fundo, debaixo das costas. O braço! O braço! Vós sois péssimos enfermeiros, péssimos. Tomara que um dia vos sintais tão cansados como este sobre a maca… Assim… E agora, em passo bem lento. E, sobretudo, regular. Vou ficar atrás de vós. (À porta, para a princesa.) Este é, pois, o guarda da cripta.

(A princesa assente.)

PRÍNCIPE: Pensei em mostrá-lo a ti de modo diferente. (Depois de mais um passo.) Não queres vir junto?
PRINCESA: Estou tão cansada.
PRÍNCIPE: Assim que tiver falado com o médico, eu volto. E os senhores me darão notícias, esperem por mim. (Sai.)
PRECEPTOR-CHEFE (À princesa.): Sua Alteza precisa de meus serviços?
PRINCESA: Sempre. Agradeço ao senhor sua vigilância. Não a abandone, ainda que ela hoje tenha sido em vão. Vale tudo. O senhor vê mais do que eu. Eu estou em meu quarto. Mas sei que tudo vai ficar cada vez mais sombrio. Dessa vez, o outono está mais triste do que nunca.

 

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“NOVO” – 109 Aforismos de Franz Kafka [Tradução de Modesto Carone]

 

Franz Kafka, de Steve Hammond Seguindo

 

O Dicionário etimológico de José Pedro Machad [1] informa que a palavra “aforismo” deriva do grego e chegou à língua portuguesa através do latim tardio aphorismus, com o significado de “limitação, breve definição, sentença”. Acrescenta que, com o tempo (já está documentado no século xvi), o termo passou a designar “uma sentença breve e indiscutível, que resume uma doutrina”.
Kafka recorreu ao aforismo em suas conversas (por exemplo, com o poeta Gustav Janouch, autor do livro Conversas com Kafka, de 1953) e no decorrer de sua carreira como escritor. Uma das principais coleções dessas “sentenças breves e indiscutíveis” foi publicada no pequeno e famoso livro Er [Ele], a partir das anotações dos diários que o escritor manteve de 1909 a 1923-4.

Do outono de 1917 até a primavera de 1918, o pensador de Praga, já muito doente, recebeu uma licença de saúde do trabalho de jurista e foi morar na propriedade de Zürau, dirigida por sua irmã predileta, Ottla. Foi no campo, com a “respiração diferente” e atento à gravidade da tuberculose pulmonar que deveria matá-lo (sua primeira hemoptise ocorreu em 1917), que ele se dedicou com afinco a esse tipo de escrita, que testemunha sua preocupação com a vida e a morte, lembrando pelo laconismo, ou então pela frase circunstanciada, o “protocolo kafkiano”, que coincide, em longa medida, com o seu gosto pela narrativa breve (contos, novelas, parábolas), que vinca sua obra e, até certo ponto, supera, pela composição enxuta e muitas vezes rasante, os grandes romances do espólio.

Nesse período, Kafka absteve-se de escrever ficção, só voltando a ela bem mais tarde — o torso colossal de O castelo, por exemplo, foi redigido em seis meses em 1922, dois anos antes de sua morte.

O aspecto factual mais relevante dos 109 Aforismos reunidos é que eles resultaram de uma seleção feita pelo autor, depois de tê-los passado a limpo à mão, com a evidente intenção de dá-los a público. Tudo indica que não houve tempo hábil para tomar essa decisão. A discrição de Kafka chegava a esse ponto e de certo modo explica sua tentativa (felizmente fracassada) de mandar o amigo Max Brod destruir os escritos não publicados em vida.

A base para este trabalho foi o volume Beim Bau der Chinesischen Mauer und andere Schriften aus dem Nachlass [Durante a construção da Muralha da China e outros escritos do espólio], incluído entre os doze tomos da edição de bolso elaborada segundo os manuscritos originais da edição crítica das obras de Franz Kafka (Org. de Hans-Gerd Koch, Frankfurt am Main, Fischer Taschenbuch Verlag, 1994).

 

AFORISMOS

1
O verdadeiro caminho passa por uma corda que não está esticada no alto, mas logo acima do chão. Parece mais destinada a fazer tropeçar do que a ser trilhada.

2
Todos os erros humanos são impaciência, uma ruptura precoce do que é metódico, uma aparente implantação daquilo que é aparente.

3
Existem dois pecados capitais, dos quais todos os outros derivam: impaciência e indolência. Por causa da impaciência os homens foram expulsos do paraíso, por causa da indolência eles não voltam. Mas talvez só exista um pecado capital: a impaciência. Por causa da impaciência eles foram expulsos, por causa dela eles não voltam.

4
Muitas sombras dos que morreram ocupam-se apenas em lamber as ondas do rio dos mortos, porque ele corre a partir de nós e ainda tem o gosto salgado dos nossos mares. O rio então recua de nojo, flui em sentido contrário e atira os mortos de volta à vida. Estes, porém, estão felizes, cantam canções de graça e acariciam o fluxo indignado.

5
A partir de certo ponto não há mais retorno. É este o ponto que tem de ser alcançado.

6
O momento decisivo da evolução humana é permanente. Por isso estão certos os movimentos revolucionários do espírito que declaram nulo tudo o que veio antes, pois nada ainda aconteceu.

7
Um dos meios de sedução mais eficazes do mal é a exortação à luta. É como a luta com mulheres, que termina na cama.

8-9
Uma cadela de mau cheiro, que pariu numerosos filhotes, em parte já apodrecendo, mas que na minha infância era tudo para mim, que me segue fielmente o tempo todo, em quem não consigo bater, mas que, mesmo evitando seu hálito, eu me desvio indo para trás e que, se não me decido por alguma outra coisa, irá me empurrar até o canto já visível da parede, para se decompor totalmente em cima de mim e comigo — é uma honra que me dá? —, a carne purulenta e cheia de vermes da sua língua em minha mão.

10
A. está muito cheio de si, julga-se bem adiantado na bondade, uma vez que — evidentemente como um objeto cada vez mais sedutor — se sente exposto a um número sempre maior de seduções, que até então lhe eram totalmente desconhecidas. A explicação certa, porém, é que nele se instalou um grande demônio e uma infinidade de outros, menores, vem vindo para servir ao maior.

11-12
Diferença das visões que se pode ter, por exemplo, de uma maçã: a visão do menino que precisa esticar o pescoço para ainda ver a maçã sobre o tampo da mesa e a do dono da casa, que pega a maçã e a estende livremente ao companheiro de mesa.

13
Um primeiro sinal do início do conhecimento é o desejo de morrer. Esta vida parece insuportável, a outra inatingível. A pessoa já não se envergonha mais de querer morrer; pede para ser levada da velha cela que ela odeia para uma nova, que só então aprenderá a odiar. Persiste um resíduo de fé durante a transferência se o senhor casualmente passar pelo corredor, avistar o prisioneiro e disser: “Este homem vocês não podem prender outra vez. Ele vai para a minha casa”.

14
Se você estivesse cruzando uma planície com a firme intenção de ir em frente, mas andasse para trás, isso então seria desesperador; mas uma vez que está escalando uma encosta íngreme, tão íngreme quanto você próprio é visto de baixo, os passos para trás podem ser causados apenas pela condição do terreno e você não precisa se desesperar.

15
Como uma trilha no outono: mal foi varrida, cobre-se outra vez de folhas secas.

16
Uma gaiola saiu à procura de um pássaro.

17
Neste lugar eu ainda nunca estive: a respiração é diferente e, mais ofuscante que o sol, brilha ao seu lado uma estrela.

18
Se tivesse sido possível construir a torre de Babel sem escalá-la até o topo, ela teria sido permitida.

19
Não deixe que o mal o faça acreditar que você poderia guardar segredos diante dele.

20
Leopardos irrompem no templo e bebem até o fim os jarros de sacrifício; isso se repete sempre, sem interrupção; finalmente pode-se contar de antemão com esse ato e ele se transforma em parte da cerimônia.

21
Com tanta firmeza quanto a mão segura a pedra. Ela a segura firmemente, porém, só para atirá-la mais longe. Mas o caminho também leva àquelas distâncias.

22
Você é a lição de casa. Por todos os lados nenhum aluno.

23
Do adversário de verdade flui uma coragem sem limites para dentro de você.

24
Compreender a felicidade de que o solo sobre o qual você se mantém não pode ser maior que os dois pés que o cobrem.

25
Como é possível alguém alegrar-se com o mundo, a não ser quando se refugia nele?

26
Os esconderijos são inumeráveis, a salvação apenas uma, mas as possibilidades de salvação, por sua vez, são tantas quanto os esconderijos.
Existe um objetivo, mas nenhum caminho; o que chamamos de caminho é hesitação.

27
Ainda nos impõem fazer o que é negativo; o positivo já nos foi dado.

28
Uma vez incorporado o mal, não se exige mais que se acredite nele.

29
O animal arranca o chicote das mãos do dono e chicoteia a si mesmo, sem saber que isso é apenas uma fantasia produzida por um novo nó na correia.

30
Em certo sentido o bem não tem consolo.

31
Não aspiro ao autocontrole. Autocontrole significa: querer atuar num lugar aleatório das irradiações infinitas da minha existência espiritual. Mas tenho de traçar estes círculos em torno de mim, por isso é melhor fazê-lo passivamente no puro espanto de admiração perante o imenso complexo e levar para casa apenas a força que, e contrário, essa visão oferece.

32
As gralhas afirmam que uma só poderia destruir o céu. Não há dúvida quanto a isso, mas não prova nada contra o céu, pois os céus significam justamente: impossibilidade de gralhas.

33
Os mártires não subestimam o corpo, deixam que ele seja erguido na cruz e nisso estão de acordo com os antagonistas.

34
Sua exaustão é a do gladiador após a luta, seu trabalho foi caiar o canto do escritório de um funcionário.

35
Não existe um ter, somente um ser — apenas um ser que anseia pelo último alento, pela asfixia.

36
Antes eu não entendia por que não recebia nenhuma resposta à minha pergunta, hoje não entendo como podia acreditar que era capaz de acreditar. Mas realmente não acreditava, só perguntava.

37
Sua resposta à afirmação de que talvez tivesse posses, mas não existência, foi apenas tremor e taquicardia.

38
Alguém se espantava com o fato de andar com facilidade pelo caminho da eternidade; na verdade ele o percorria para baixo.

39
Não se pode pagar o mal a prestação — e, no entanto, as pessoas tentam isso sem parar.
Seria concebível que Alexandre, o Grande, a despeito dos êxitos guerreiros de sua juventude, do excelente exército que formou, das forças que sentia dentro de si para mudar o mundo, tenha estacado às margens do Helesponto e jamais o atravessado, na verdade não por medo, indecisão ou falta de energia, mas por causa da força da gravidade.

39a
O caminho é infinito, não há nada a subtrair ou acrescentar e, no entanto, todos insistem na própria medida infantil. “Certamente você precisa percorrer mais esse côvado de caminho, isso não lhe será negado.”

40
Só a nossa concepção de tempo nos faz nomear o Juízo Final com essas palavras; na realidade ele é uma corte permanente.

41
A desproporção do mundo parece ser, de maneira consoladora, apenas numérica.

42
Permitir que a cabeça cheia de asco e ódio afunde no peito.

43
Os cães de caça ainda brincam no pátio, mas a presa não lhes escapa, por mais que já dispare pelas florestas.

44
É ridículo como você coloca arreios em si mesmo para este mundo.

45
Quanto mais cavalos você atrela para o trabalho, tanto mais rápido ele anda, ou seja: não para arrancar os blocos de alicerce, o que é impossível, mas para rebentar as correias e, como resultado, a alegre viagem vazia.

46
A palavra ser [sein] significa duas coisas em alemão: estar aí [Dasein] e pertencer-lhe [Ihm gehören].

47
Foi-lhes apresentada a opção para se tornarem reis ou mensageiros dos reis. À maneira das crianças, todos quiseram ser mensageiros. É por isso que existe um bando de mensageiros que correm pelo mundo e, uma vez que não há mais reis, bradam uns para os outros as mensagens que perderam o sentido. Gostariam de pôr um fim à sua vida miserável, mas não ousam fazê-lo por causa do juramento de ofício.

48
Crer no progresso não significa crer que ele já aconteceu. Isso não é crença.

49
A. é um virtuose e o céu sua testemunha.

50
O homem não consegue viver sem uma confiança duradoura em algo indestrutível nele mesmo, muito embora tanto o indestrutível como a confiança possam permanecer-lhe ocultos de maneira contínua. Uma das possibilidades dessa ocultação permanente é a crença em um Deus pessoal.

51
A mediação da serpente era necessária: o mal pode seduzir o homem, mas não tornar-se homem.

52
Na luta entre você e o mundo, apoie o mundo.

53
Não se deve fraudar ninguém, nem mesmo o mundo por sua vitória.

54
Não existe nada a não ser um mundo espiritual; o que chamamos de mundo dos sentidos é o mal no mundo do espírito e o que chamamos de mal, apenas a necessidade de um instante em nossa eterna evolução.
Com a mais forte das luzes pode-se dissolver o mundo. Diante de olhos fracos, torna-se sólido, de olhos mais fracos não se adapta, de outros mais fracos ainda, fica envergonhado e esmaga quem ousa fitá-lo.

55
Tudo é fraude: buscar o mínimo de ilusão, permanecer no nível usual, buscar o máximo. No primeiro caso, frauda-se o bem, na medida em que se deseja tornar fácil demais sua conquista; o mal, na medida em que é colocado em condições de luta excessivamente desfavoráveis. No segundo caso, o bem é fraudado na medida em que não se luta para alcançá-lo, nem mesmo naquilo que é terreno. No terceiro caso, frauda-se o bem na medida em que a esperança é torná-lo impotente com sua máxima intensificação. Seria preferível, nisso tudo, o segundo caso, pois sempre se frauda o bem e não o mal; neste caso, pelo menos na aparência.

56
Há questões que não poderíamos superar se não estivéssemos livres delas pela própria natureza.

57
Só alusivamente a linguagem pode ser usada para tudo o que está fora do mundo dos sentidos, mas nunca comparativamente, nem mesmo de forma aproximada, uma vez que ela só trata, correspondendo ao mundo sensorial, da propriedade e de suas relações.

58
Mente-se o menos possível só quando se mente o menos possível e não quando se tem a menor oportunidade possível para mentir.

59
Um degrau de escada que não foi desgastado a fundo é, do seu próprio ponto de vista, apenas algo de madeira montado no ermo.

60
Quem renuncia ao mundo tem de amar a todos os seres humanos, pois também renuncia ao mundo deles. A partir daí começa a pressentir a verdadeira essência humana, que não é outra coisa senão poder ser amado, pressupondo-se que esteja à altura disso.

61
Quem, dentro do mundo, ama o próximo não está mais nem menos certo do que quem, dentro do mundo, ama a si mesmo. Resta só a pergunta sobre se o primeiro deles é possível.

62
O fato de que não existe nada senão um mundo do espírito tira-nos a esperança e nos dá a certeza.

63
Nossa arte consiste em ser ofuscado pela verdade: a luz sobre o rosto horrível que vai recuando é verdadeira, de resto nada.

64-65
A expulsão do paraíso, no seu principal aspecto, é eterna. É verdade também que essa expulsão é definitiva e que a vida no mundo, inevitável, mas, apesar disso, a eternidade do processo torna possível não só que continuemos continuamente no paraíso, como também que, na realidade, estamos lá de forma duradoura, não importa se aqui temos ou não conhecimento disso.

66
Ele é um cidadão livre e seguro da Terra, pois está atado a uma corrente suficientemente longa para dar-lhe livre acesso a todos os espaços terrenos e, no entanto, longa apenas para que nada seja capaz de arrancá-lo dos limites da Terra. Mas é, ao mesmo tempo, também um cidadão livre e seguro do céu, uma vez que está igualmente atado a uma corrente celeste calculada de maneira semelhante. Assim, se quer descer à Terra, a coleira do céu o enforca; se quer subir ao céu, enforca-o a coleira da Terra. A despeito de tudo, tem todas as possibilidades e as sente, recusando-se mesmo a atribuir o que acontece a um erro cometido no primeiro ato de acorrentar.

67
Ele corre atrás dos fatos como um principiante em corrida de patins, que, além do mais, se exercita onde quer que seja proibido.

68
O que pode ser mais alegre que a crença em um deus da casa?

69
Teoricamente existe uma chance de felicidade plena: acreditar no que há de indestrutível em si próprio e não ter de lutar para alcançá-lo.

70-71
O indestrutível é um só: cada indivíduo em particular o é, e ao mesmo tempo ele é comum a todos, daí a força sem paralelo da união indissolúvel entre os homens.

72
Existem no mesmo ser humano conhecimentos que, a despeito da completa diferença entre eles, têm o mesmo objeto, de tal forma que só é possível concluir que há sujeitos diferentes no mesmo ser humano.

73
Ele devora os despojos que caem da própria mesa; sendo assim, na verdade, fica por algum tempo mais satisfeito que todos, mas se esquece de comer à mesa; com isso, porém, deixam de cair no chão também os despojos.

74
Se o que devia ser destruído no paraíso fosse passível de destruição, então isso não era decisivo; mas se era indestrutível, então vivemos numa falsa crença.

75
Teste a si mesmo pela humanidade. Ela faz quem duvida a duvidar, quem acredita a acreditar.

76
O sentimento: “Aqui eu não ancoro” — e imediatamente sente em sua volta as ondas da maré montante arrastando.
Uma reviravolta. À espreita, com medo, esperançosa, a resposta cerca a pergunta, examina desesperadamente seu semblante inacessível, segue-a pelos caminhos mais sem sentido, ou seja: os que se empenham em chegar ao lugar o mais distante da resposta.

77
O convívio com os seres humanos atrai para a auto-observação.

78
O espírito só fica livre quando deixa de ser um suporte.

79
O amor sensual nos ilude sobre o amor celeste; sozinho, não poderia fazê-lo; mas pode, uma vez que tem dentro de si, inconscientemente, o elemento do amor sensual.

80
A verdade é indivisível, portanto não pode ter conhecimento de si mesma; quem quer que diga conhecê-la está se referindo a uma mentira.

81
Ninguém pode exigir o que em última análise o prejudica. Se uma pessoa em particular, afinal de contas, parece ser assim — e talvez existam sempre pessoas desse tipo —, isso se explica pelo fato de que alguém, no ser humano, exige algo que na verdade o beneficia, embora prejudique seriamente um segundo, em parte atraído para julgar o caso. Se a pessoa foi colocada logo de início, e não apenas na hora do julgamento, ao lado da segunda, então a primeira teria desaparecido aos poucos e com ela a exigência.

82
Por que nós nos queixamos do pecado original? Não foi por sua causa que fomos expulsos do paraíso, mas por causa da árvore da vida.

83
Não somos pecadores somente por ter comido da árvore do conhecimento, mas também porque ainda não comemos da árvore da vida. O estado em que nos encontramos é pecaminoso independentemente de culpa.

84
Fomos criados para viver no paraíso, o paraíso estava destinado a nos servir. Nosso destino foi modificado; que isso tivesse acontecido também com a determinação do paraíso, não é dito em parte alguma.

85
O mal é uma irradiação da consciência humana em certas situações de transição. Não é propriamente o mundo sensorial que é aparência, mas o mal que carrega consigo e, seja como for, constitui o mundo dos sentidos para os nossos olhos.

86
Desde o pecado original fomos essencialmente iguais para conhecer o bem e o mal; no entanto, é exatamente neste ponto que buscamos nossas vantagens particulares. Mas é só além desse conhecimento que começam as verdadeiras diferenças. A aparência recíproca é provocada pelo seguinte: ninguém consegue contentar-se apenas com o conhecimento, mas tem de lutar para agir de acordo com ele. Contudo, não lhe foi atribuída a força para fazer isso; em consequência, ele tem de se destruir, mesmo correndo o risco de não adquirir com isso o poder necessário, mas não lhe resta nada senão essa última tentativa. (É este também o sentido da ameaça de morte associada à proibição de comer da árvore do conhecimento; talvez também o sentido original da morte natural.) Ora, ele tem uma tentativa; prefere revogar o conhecimento do bem e do mal; (a expressão “pecado original” tem origem nesse medo) mas o que aconteceu não pode ser suprimido, apenas turvado. É com esse objetivo que as motivações vêm à tona; com efeito, todo mundo visível talvez não seja outra coisa senão uma motivação do ser humano para sua vontade de descansar um momento. Uma tentativa de falsear o fato do conhecimento, para só então transformá-lo em objetivo a ser atingido.

87
Uma fé como uma guilhotina, tão pesada e tão leve.

88-89
A morte está diante de nós, pouco mais ou menos como um quadro da batalha de Alexandre na parede da sala de aula. O que interessa é obscurecer ou até borrar, com nossos atos, ainda nesta vida, essa imagem.

90
Duas possibilidades: fazer-se infinitamente pequeno ou ser assim. A primeira é a perfeição; a segunda o início, a ação.

91
Para evitar um equívoco verbal: o que deve ser ativamente destruído precisa antes ter sido sustentado com firmeza total; o que desmorona, desmorona, mas não pode ser destruído.

92
A primeira adoração dos ídolos foi sem dúvida medo das coisas, mas relacionado com este o medo da necessidade das coisas e, relacionado com isso, o medo da responsabilidade por elas. Essa responsabilidade parecia tão gigantesca, que nem mesmo se ousou impô-la a um único ser humano, pois, pela mera mediação de um ser, a responsabilidade humana não teria sido aliviada o suficiente, o convívio com um ser apenas teria sido contaminado de uma maneira mais profunda ainda pela responsabilidade; por isso deu-se a cada coisa a responsabilidade por si mesma, mais: deu-se a essas coisas, também, uma medida da responsabilidade para o ser humano.

93
Pela última vez, psicologia!

94
Duas tarefas do início da vida: limitar seu círculo cada vez mais e verificar continuamente se você não está escondido em algum lugar fora do seu círculo.

95
O mal às vezes está na mão como um instrumento conhecido ou desconhecido, se alguém tem vontade de fazer isso, ele pode ser posto de lado sem oposição.

96
As alegrias desta vida não são as dela, mas o nosso medo de ascender a uma vida mais elevada; os tormentos desta vida não são os dela, mas o nosso autotormento por causa daquele medo.

97
Só aqui o sofrimento é sofrimento. Não como se aqueles que aqui sofrem devam ascender a outro lugar em função desse sofrimento, mas no sentido de que aquilo que neste mundo se chama sofrimento, em outro mundo, inalterado e tão somente libertado do seu oposto, é êxtase.

98
A ideia da extensão infinita e plenitude do cosmos é o resultado da mistura levada ao extremo da criação laboriosa e livre autorreflexão.

99
Tão mais opressiva que a convicção implacável de nosso presente estado pecaminoso é até a mais frágil convicção da antiga, eterna justificação de nossa existência temporal. Só a capacidade de suportar desta segunda convicção, que em sua pureza abrange completamente a primeira, é a medida da fé.
Muitos consideram que, ao lado da grande fraude primitiva, existe em cada caso particular uma pequena fraude especial encenada em proveito próprio, do mesmo modo, por exemplo, numa intriga amorosa, representada no palco, a atriz, além do falso sorriso para o seu amante, tem ainda outro, particularmente pérfido, dirigido ao espectador bem definido na última fileira da galeria. Isso significa ir longe demais.

100
Pode haver um conhecimento do que é diabólico, mas nenhuma fé nele, pois mais diabólico do que está aí presente, não existe.

101
O pecado sempre chega abertamente e pode ser captado logo pelos sentidos. Ele vai às raízes destes e não precisa ser arrancado.

102
Todos os sofrimentos ao nosso redor nós também temos de sofrer. Temos todos não um corpo, mas um estilo de crescer, o que nos faz atravessar todas as dores, seja nesta ou naquela forma. Assim como a criança evolui por todos os estágios da vida até a velhice e a morte (e cada estágio no fundo parece inalcançável ao anterior, na exigência ou no medo), do mesmo modo evoluímos (ligados não menos profundamente à humanidade do que a nós mesmos) por meio de todas as dores deste mundo. Nesse contexto, não existe lugar para a justiça, nem também para o medo da dor ou para a interpretação do sofrimento como um mérito.

103
Você pode se conter diante dos sofrimentos do mundo — é algo que tem liberdade de fazer e corresponde à sua natureza, mas talvez seja esse autocontrole o único sofrimento que você poderia evitar.

104
O ser humano tem livre-arbítrio, na realidade de três espécies:
Primeiro, livre quando quis esta vida; agora, seja como for, já não pode revogá-la, pois não é mais aquele que antes a quis; seria livre, portanto, enquanto realiza a antiga vontade ao viver.
Segundo, ele é livre na medida em que pode escolher o modo de andar e o caminho desta vida.
Terceiro, é livre enquanto for aquele que outra vez será o que tem vontade de ir pela vida sob qualquer condição, para deixar que ela venha até você; na verdade por um caminho passível de escolha, mas de qualquer maneira tão labiríntico que não deixa intocado qualquer pedacinho desta vida.
São estas as três espécies de livre-arbítrio, mas ele é também — uma vez que são coisas simultâneas —, no fundo, de uma só espécie, tanto que não há espaço para a vontade, seja ela livre ou sem liberdade.

105
O meio de sedução deste mundo, bem como o signo de garantia de que ele é apenas uma transição, é uma e a mesma coisa. Com razão, pois só assim este mundo pode nos seduzir de uma forma que corresponda à verdade. O pior, no entanto, é que depois da sedução bem-sucedida, nós nos esquecemos da garantia; foi dessa maneira, na realidade, que o bem nos atraiu para o mal, e o olhar da mulher, para a sua cama.

106
A humildade oferece a todos, mesmo ao que se desespera na solidão, a relação mais forte com o semelhante, na realidade imediatamente, mas, com certeza, só no caso da humildade completa e duradoura. Ela é capaz disso por ser a verdadeira linguagem da oração e a mais sólida das ligações. A relação com o semelhante é a relação da prece; a relação consigo mesmo, a relação do esforço para alcançar algo; a energia para esse esforço é extraída da oração.
Você pode conhecer outra coisa que não seja a fraude? Fosse ela um dia obstruída, você de modo algum poderia olhar para lá se não quisesse virar uma coluna de sal.

107
Todos são muito amáveis com A., como quando se procura proteger cuidadosamente uma excelente mesa de bilhar, mesmo de bons jogadores — pelo menos até o momento em que chega o grande jogador, examina com precisão a superfície, não tolera nenhum erro precipitado, mas depois, quando ele próprio começa a jogar, tem o mais brutal acesso de fúria.

108
“Mas depois ele voltou ao trabalho como se nada tivesse acontecido.” Essa é uma observação que nos é familiar de uma profissão de velhas histórias, muito embora talvez não tenha acontecido em nenhuma delas.

109
“Não se pode dizer que estamos carentes de fé. O simples fato de nossa vida é, por si só, inesgotável em seu valor de fé.”
“Seria isso um valor de fé? Não é possível não viver.”
“Já nesse ‘não é possível’ reside a força insana da fé; é nessa negação que ela assume sua forma.”
Não é necessário que você saia de casa. Fique junto à sua mesa e escute. Nem mesmo escute, só espere. Nem mesmo espere, totalmente em silêncio e sozinho. O mundo irá oferecer-se a você para o próprio desmascaramento, não pode fazer outra coisa, extasiado ele irá contorcer-se a seus pés.

 

NOTA
[1] Dicionário etimológico da língua portuguesa, 3a ed., Lisboa, Livros Horizonte, 1977, 5 vols.

REFERÊNCIA
KAFKA, Franz. Essencial. Tradução Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

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