6º Kafkiana
Chamada de trabalhos
A sexta edição do Kafkiana acontecerá em Ouro Preto, Minas Gerais, em uma parceria entre a Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e o Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG), entre os dias 16 a 18 de setembro de 2026. O encontro tem como objetivo reunir pesquisadores e pesquisadoras da obra de Franz Kafka, bem como divulgar pesquisas e estudos de graduação e pós-graduação em andamento que dialoguem com sua literatura, sua recepção e suas reverberações nas produções e reflexões contemporâneas.
Completados mais de cem anos da morte de Franz Kafka, o cenário do mundo parece ainda habitar paisagens kafkianas. Tendo em vista nosso contexto atual, atravessado por guerras, crises humanitárias, catástrofes ambientais e dilemas éticos impostos pela tecnologia e pela inteligência artificial, torna-se necessário revisitar a obra de Kafka à luz das ruínas e das inquietações do presente.
Em 1916, às voltas da Primeira Guerra Mundial, Kafka encontra uma das condições mais favoráveis para seu processo de escrita: na chamada Viela dos Alquimistas, em Praga, sua irmã Ottla deixa à sua disposição uma pequena casa aquecida e silenciosa. Nessas propícias circunstâncias, o escritor põe em curso, de forma ainda mais decisiva, a criação de narrativas nas quais seu leitor não poderá deixar de notar a centralidade de criaturas que nos escapam à compreensão e desafiam nosso ponto de vista antropocêntrico, positivista e racionalista. Antes, em 1915, escreve um bem-humorado e inacabado texto em prosa sobre a dupla de bolinhas de pingue-pongue, que atormentam a vida cotidiana de um solteirão de meia-idade chamado Blumfeld. Acontece que essas bolinhas antecipam a presença de uma série de personagens tão indistinguíveis quanto, que passam a tomar conta do projeto literário kafkiano a partir de então: estamos nos referindo não somente a personagens como Odradek – que, a propósito, apresenta notável semelhança com as incômodas bolas de celuloide –, mas também de outros seres híbridos, entre os quais podemos mencionar o símio Pedro Vermelho, de “Relatório para uma academia”, o Dr. Bucéfalo, de “O novo advogado”,o gato-cordeiro em “Um cruzamento”, o cachorro, de “Investigações de um cão”, o roedor que narra “A construção”, entre outros.
Durante esse período, Kafka parece se dar conta da forma fragmentária de sua prosa, manipulando esse procedimento não apenas na estrutura narrativa, mas também na construção de personagens que borram fronteiras. É possível pensá-los, por exemplo, como a captura de uma época em que o lugar de prestígio de tudo o que tradicionalmente representava o humano, desde o extrato biológico até o metafísico, passou a ser colocado em questão. Em ensaio sobre a figura do narrador, Walter Benjamin discorre a respeito do silêncio dos combatentes que voltaram da Primeira Guerra Mundial: perdeu-se, em consequência do então conflito global, a faculdade humana que se acreditava “totalmente segura e inalienável” de intercambiar experiências. Ocorre que, em Kafka, o ponto de vista humano também é, por assim dizer, silenciado: não são homens relatando suas experiências, mas animais que falam sobre animais e para animais. É para o público de cães, por exemplo, que o cão investigador de “Investigações de um cão” dirige seu discurso: “cães como você e eu”.
Ao colocar em destaque discursos não-humanos e, portanto, não ocidentais – em que o processo de ruptura e descontinuidade se estende, inclusive, à forma, à estética e ao próprio gênero literário –, Kafka nos oferece mais do que um diagnóstico; propõe a possibilidade – e talvez a necessidade – de se pensar e de reinventar o mundo a partir de outros pontos de vista. Diante desse fenômeno literário, notamos que inúmeros temas pertinentes à nossa época são antecipados pelos textos de Kafka, tanto porque vivenciamos os efeitos de duas grandes catástrofes mundiais, como também porque assistimos à criação de novas formas de ruínas.
De modo a refletir sobre as ruínas e fins de mundo (ou de mundos), o pressentimento de uma nova guerra global, as figuras desfiguradas e as criaturas estranhas que habitam tanto o espaço ficcional de Kafka quanto o espaço do real, a VI edição do Kafkiana tem a intenção de se debruçar sobre as narrativas em dissolução, nas possibilidades e limites da catástrofe. Entre os eixos possíveis de discussão, destacam-se ainda as relações entre humanos e não-humanos, natureza e técnica, memória e esquecimento, religião e secularização, bem como as aproximações entre Kafka e as teorias queer/cuir, o diálogo entre literatura e outras mídias, as discussões que envolvam racismo estrutural, a interseccionalidade entre gênero, raça e classe, as reflexões sobre poder e burocracia, e as formas de resistência que emergem de sua escrita.
O evento contará também com o lançamento da antologia “Kafka – Espelho do Ser Humano”, organizada por Ricardo Iannace e por Ricardo Musse a ser publicada pela Ateliê Editorial, integrando a Coleção 100 Anos da editora. A publicação reúne ensaios de diferentes pesquisadores e pesquisadoras sobre múltiplos aspectos da obra kafkiana e de sua atualidade.
Inscrições de 29 de junho até 17 de julho
A Comissão Organizadora receberá resumos de trabalhos de até 300 palavras, com até 5 palavras-chave, para comunicações de até 20 minutos. Os trabalhos serão avaliados por um Comitê Científico. Serão aceitos trabalhos de pesquisadores, professores, doutores, mestres, pós-graduandos e graduandos. As propostas devem ser enviadas por meio do formulário:
Comissão organizadora
Laís Maria de Oliveira
Doutoranda em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), possui graduação em Letras (2011), modalidade licenciatura em Português e Literatura e Mestrado em Teoria Literária e Crítica da Cultura pela pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).
Pablo Baptista Rodrigues
Mestre em Teoria Literária com a dissertação Franz Kafka: Metamorfoses da Liberdade e da Submissão (UFRJ-CNPQ). Atualmente é doutorando (2019) do Programa de Pós-graduação em Ciência da Literatura da (UFRJ-Capes) onde desenvolve pesquisa sobre a construção da negritude estética em Franz Kafka. É mebro fundador-idealizador do Projeto Franz Kafka Brasil.
Ricardo Pinto de Souza
Possui graduação em Português Literaturas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2001), Mestrado (2005) e Doutorado (2010) em Letras (Ciência da Literatura) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atualmente é professor adjunto de Teoria Literária na Faculdade de Letras da UFRJ, com pesquisa sobre estética, especialmente a recepção da Tragédia Grega. É também editor. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Literatura Comparada.
Dúvidas
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Onde vai ocorrer as conferências e palestras?
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Serão emitidos certificados?
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